Audição sobre Economia

Romper com o modelo neoliberal

Economistas, sindicalistas e especialistas de várias áreas participaram, no dia 28, numa audição sobre os problemas da economia portuguesa. Romper com o modelo neoliberal é o caminho para a saída da crise.

Mais do que causa da crise, o défice é consequência do modelo seguido

Não é o tão falado défice o principal problema da economia nacional. Esta foi a convicção expressa pelo candidato presidencial comunista, Jerónimo de Sousa, e pelos diversos participantes na audição sobre os «problemas centrais da economia portuguesa», realizada, em Lisboa, no dia 28. Pelo contrário, afirmou o candidato, o défice é precisamente o resultado do fraco crescimento da economia nacional, este sim o principal problema. Para os presentes, e como afirmou Jerónimo de Sousa, são a «fragilidade do tecido produtivo nacional, a sua incapacidade para responder à procura do mercado interno e competir nos mercados externos o grande e grave problema do País».
As causas para este fraco crescimento económico e pela evolução negativa da economia nacional não residem, como alguns pretendem agora fazer crer, na Constituição da República Portuguesa. Mas, acusou Jerónimo de Sousa, na política seguida ao longo das últimas décadas, que «desperdiçou milhões de euros de fundos comunitários e foi incapaz de promover qualquer alteração estrutural no tecido produtivo português». Política essa que, «debilitou a estrutura produtiva do País», denunciou o candidato, lembrando a liquidação da agricultura, das pescas e da indústria nacionais.
Jerónimo de Sousa responsabiliza pela crise a substituição da produção nacional pela estrangeira e a sub-contratação «cada vez mais desvalorizada da economia portuguesa». Para o também secretário-geral do PCP, ao não ter sido capaz de alterar o modelo económico baseado nos baixos salários, baixas qualificações e na fraca incorporação científica e tecnológica no processo produtivo, a política de direita – e os seus praticantes e defensores – condenou e condena Portugal ao atraso. Jerónimo de Sousa considera que a economia portuguesa e a competitividade exigem precisamente o contrário.

Outro caminho

Na opinião do candidato, só invertendo este caminho e assegurando uma política alternativa é possível sair da situação em que se encontra o País. «Nós precisamos de uma política que defenda a produção nacional e que, recusando a continuação da privatização e liberalização de serviços, assegure a preservação pública de alavancas fundamentais da economia e serviços públicos de qualidade», afirmou Jerónimo de Sousa. E acrescentou a necessidade de garantir a manutenção de centros de decisão e de soberania económica nacionais.
Defendendo que os fundos comunitários e os apoios públicos devem estar ao serviço da valorização da produção nacional e do investimento directamente produtivo – e não especulativo, como tantas vezes sucede –, Jerónimo de Sousa defende a melhoria da especialização produtiva em sectores de maior conteúdo tecnológico, com produtos de maior valor acrescentado. Além disto, há que combater os défices que o País apresenta de bens alimentares, de consumo e equipamentos. Para o candidato, é claro que Portugal «tem que produzir mais e importar menos».
A política económica necessária, defendeu, terá que promover um crescimento económico «acelerado e sustentado, liberto de submissão ao Pacto de Estabilidade e outras imposições externas». Tudo, confia, na base de um «tecido económico de perfil produtivo valorizado, regionalmente equilibrado, e fazendo um uso racional da energia e dos recursos naturais». E defendeu que a sustentabilidade das finanças públicas deve ser procurada no quadro da necessidade de um «elevado esforço de investimento em infraestruturas físicas, em capital humano e em áreas sociais como a saúde e a protecção social».
Jerónimo de Sousa defendeu que o equilíbrio orçamental «não pode continuar a ser conseguido à custa da diminuição da prestação das funções sociais do Estado». Além do mais, considera, esta é mais uma questão de receitas – evasão fiscal, baixas taxas de IRC para a Banca e grandes grupos económicos – do que de despesas.

Uma política desastrosa

Trinta anos de política de direita e duas décadas de privatizações conduziram o País a uma situação muito negativa do ponto de vista económico. Foi esta política, acusou Jerónimo de Sousa, que promoveu a reconstituição das grandes fortunas e dos grandes grupo económicos com a «entrega do melhor património público empresarial e das alavancas fundamentais da nossa economia ao grande capital nacional e estrangeiro».
Para o candidato, anos de «ofensiva liberalizadora e privatizadora de sectores básicos, de funções sociais do Estado e serviços públicos», não trouxe – pelo contrário – quaisquer vantagens em termos de «preços, qualidade do serviço e de redução da despesa pública». Ao invés, esta política promoveu o afastamento da média europeia no desenvolvimento e a degradação do nível e qualidade de vida dos portugueses.
Considerando estar-se perante uma crise estrutural, Jerónimo de Sousa alertou para a evolução mais recente da situação económica, marcada pelas sistemáticas revisões aquém das previsões de crescimento do produto realizadas pelas entidades oficiais. Esta tendência tem, considerou, «reflexos muito negativos e preocupantes na Balança Comercial e no desemprego».
Em seguida, denunciou o que considera ser o recuo da economia para patamares inferiores aos da estagnação e realçou o «irrealismo das projecções governamentais para 2006, nomeadamente os cerca de 6 por cento previstos de crescimento das exportações portuguesas». Ainda por cima estando este crescimento muito dependente do novo automóvel Cabrio da VW/AutoEuropa, e por isso de muito problemática concretização, já que os prazos do inicio da construção e de comercialização estão atrasados, lembrou. Para o candidato comunista, esta situação revela ainda a «debilidade em que assenta o nosso crescimento cada vez mais afunilado e dependente num conjunto escasso de produtos».


Mais artigos de: Em Foco

Uma vitória consistente e séria

A vitória eleitoral da CDU em Alcochete está relacionada com a campanha de reforço do PCP, segundo Luís Franco, o novo presidente da Câmara Municipal, e Virgolino Rodrigo, o responsável pela organização local do Partido. O contrário também é válido: esta sucesso contribuirá para o crescimento do PCP.

Independência e soberania <br>Valores inalienáveis

Na véspera da entrega no Tribunal Constitucional das assinaturas necessárias à formalização da candidatura de Jerónimo de Sousa à Presidência da República, o candidato fez uma declaração sobre Soberania, Defesa Nacional e Forças Armadas, na qual defendeu os princípios irrenunciáveis da independência e soberania nacionais e exigiu a dissolução da NATO e outros blocos político-militares.

Entregues mais de 14 mil assinaturas

Jerónimo de Sousa foi o primeiro candidato presidencial a entregar as assinaturas necessárias à formalização da sua candidatura. O candidato comunista, acompanhado pelo mandatário nacional, Mário Nogueira, e por diversos membros da sua comissão nacional, entregou cerca de 14 300 assinaturas no Tribunal Constitucional. A...

Uma candidatura com horizontes largos

Dezenas de pessoas acolheram Jerónimo de Sousa, domingo, numa sessão pública realizada no salão da Associação de Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém.

Pelos direitos de quem trabalha

Que o mundo do trabalho apoia Jerónimo de Sousa para a presidência da República , já tinha sido verificado no grande almoço do Seixal, no qual participaram mais de 1000 dirigentes e delegados sindicais, membros de Comissões de Trabalhadores e representantes dos trabalhadores nas comissões de saúde, higiene e segurança....

Jerónimo de Sousa com comunidades portuguesas

Também entre os portugueses que vivem no estrangeiro, as eleições presidenciais são seguidas com atenção e a simpatia e o apoio à candidatura de Jerónimo de Sousa não param de aumentar. Entre os dias 25 e 26, o candidato presidencial comunista participou em reuniões, convívios e outras iniciativas em Bruxelas e em Osnabrück, junto com as comunidades portuguesas e com os seus representantes.

Defender o Estado de Abril

Ao jurar cumprir e fazer cumprir a Constituição, o Presidente da República deve defender o Estado Democrático consagrado na Lei Fundamental das ofensivas neoliberais, afirmou Jerónimo de Sousa, no passado dia 24.

Somam-se os apoios

Depois de apresentada a Comissão Nacional de Apoio à candidatura presidencial de Jerónimo de Sousa, prosseguiu a recolha de apoios e mais cidadãos se juntaram à imensa lista que personalidades apoiantes desta candidatura. São eles: António Miranda Ribeiro, advogado; Augusto Silva Gomes, industrial de táxis; Carlos...

Jerónimo com apoiantes

O candidato do PCP às eleições presidenciais de 22 de Janeiro participou, segunda-feira à noite, na Voz do Operário, num jantar com algumas centenas de apoiantes, da cidade de Lisboa. Ontem, de manhã, o secretário-geral do Partido esteve, no âmbito da campanha eleitoral, com os trabalhadores da Lisnave, em Setúbal. Hoje...