Sabe ou não?
O Primeiro-Ministro, José Sócrates, proferiu dias antes das eleições autárquicas (mais exactamente, nas comemorações do 5 de Outubro) umas declarações que vale a pena recuperar.
Disse ele que «há uma conflitualidade social, relativamente às medidas do Governo, muito abaixo do que seria de esperar em Portugal», descoberta que decidiu ilustrar com uma sugestiva comparação com a situação em França, onde «com o Governo a fazer muito menos que o Governo português, são muito maiores as manifestações».
Tal indiferença pela luta dos trabalhadores entusiasmou um democrata do calibre de Luís Delgado - que logo na prosa do dia seguinte, no DN, lambuzava o Primeiro-Ministro com a confissão do seu «fascínio» pela «personalidade fascinante» de Sócrates -, mas isso é o Luís Delgado, um «bonzo» (como também chamou a quem o critica) do reaccionarismo apostólico.
O que conta é o que ficou dito pelo Primeiro-Ministro.
Duma assentada, reconheceu que a conflitualidade social se situa muito abaixo do que seria de esperar em Portugal e que, ainda por cima, em França as manifestações são muito maiores que em Portugal, apesar de o Governo francês fazer muito menos que o Governo português.
Em primeiro lugar, José Sócrates reconhece, preto no branco, que o seu Governo está a tomar muito mais medidas gravosas para os cidadãos do seu País que o próprio Governo de direita que desgoverna actualmente a França.
Em segundo lugar, o Primeiro-Ministro manifesta um petulante desprezo pela capacidade protestativa do seu próprio povo, ao chegar ao extremo de ironizar sobre o nível das reclamações portuguesas «muito abaixo» das «muito maiores manifestações em França».
É o máximo.
E também o mínimo. Do decoro, da honestidade política, até do elementar bom senso.
Então a derrota humilhante e generalizada que o PS sofreu nas eleições autárquicas do passado dia 9 de Outubro, apenas sete meses após uma retumbante maioria absoluta, não anuncia uma «conflitualidade social» evidente?
É que a alternativa não é melhor: se o desastre eleitoral autárquico do PS – como também defendeu José Sócrates – nada tem a ver com o Governo, necessariamente resultará de péssimas candidaturas PS apresentadas por essas autarquias fora, o que deixaria o partido de Sócrates dentro de uma bela camisa de onze varas, pois as suas candidaturas autárquicas estão encharcadas com a nata dos seus dirigentes...
Todavia, a tal «conflitualidade social» não se fica por aqui, como convém lembrar ao sr. Primeiro-Ministro.
Sem sermos exaustivos, assinalamos-lhe – só no passado mais recente – os protestos generalizados das Forças Armadas e de Segurança, a concentração dos trabalhadores da Parque Expo do dia 4 de Outubro, a jornada internacional do sector dos transportes do dia 10, as greves de 6 e 7 da ex-Covina ou a greve nacional dos enfermeiros dos dias 12 e 13 de Outubro, ao mesmo tempo que lhe recomendamos que se prepare para a concentração nacional dos trabalhadores da Função Pública a decorrer hoje mesmo, dia 20, a greve nacional dos trabalhadores das pedreiras do próxima dia 27, as greves de todo o sector da justiça (englobando juízes, magistrados dos Ministério Público e funcionários judiciais) dos dias 25, 26 e 27 próximos ou a jornada nacional de luta marcada pela CGTP-IN para 10 de Novembro. Isto também sem sermos exaustivos.
Não acha «conflitualidade social» suficiente, sr. Primeiro-Ministro?
A não ser que, ao invés do seu homónimo grego - que deixou dito «Só sei que nada sei» -, V. Excia nem sabe que não sabe nada disto.
Disse ele que «há uma conflitualidade social, relativamente às medidas do Governo, muito abaixo do que seria de esperar em Portugal», descoberta que decidiu ilustrar com uma sugestiva comparação com a situação em França, onde «com o Governo a fazer muito menos que o Governo português, são muito maiores as manifestações».
Tal indiferença pela luta dos trabalhadores entusiasmou um democrata do calibre de Luís Delgado - que logo na prosa do dia seguinte, no DN, lambuzava o Primeiro-Ministro com a confissão do seu «fascínio» pela «personalidade fascinante» de Sócrates -, mas isso é o Luís Delgado, um «bonzo» (como também chamou a quem o critica) do reaccionarismo apostólico.
O que conta é o que ficou dito pelo Primeiro-Ministro.
Duma assentada, reconheceu que a conflitualidade social se situa muito abaixo do que seria de esperar em Portugal e que, ainda por cima, em França as manifestações são muito maiores que em Portugal, apesar de o Governo francês fazer muito menos que o Governo português.
Em primeiro lugar, José Sócrates reconhece, preto no branco, que o seu Governo está a tomar muito mais medidas gravosas para os cidadãos do seu País que o próprio Governo de direita que desgoverna actualmente a França.
Em segundo lugar, o Primeiro-Ministro manifesta um petulante desprezo pela capacidade protestativa do seu próprio povo, ao chegar ao extremo de ironizar sobre o nível das reclamações portuguesas «muito abaixo» das «muito maiores manifestações em França».
É o máximo.
E também o mínimo. Do decoro, da honestidade política, até do elementar bom senso.
Então a derrota humilhante e generalizada que o PS sofreu nas eleições autárquicas do passado dia 9 de Outubro, apenas sete meses após uma retumbante maioria absoluta, não anuncia uma «conflitualidade social» evidente?
É que a alternativa não é melhor: se o desastre eleitoral autárquico do PS – como também defendeu José Sócrates – nada tem a ver com o Governo, necessariamente resultará de péssimas candidaturas PS apresentadas por essas autarquias fora, o que deixaria o partido de Sócrates dentro de uma bela camisa de onze varas, pois as suas candidaturas autárquicas estão encharcadas com a nata dos seus dirigentes...
Todavia, a tal «conflitualidade social» não se fica por aqui, como convém lembrar ao sr. Primeiro-Ministro.
Sem sermos exaustivos, assinalamos-lhe – só no passado mais recente – os protestos generalizados das Forças Armadas e de Segurança, a concentração dos trabalhadores da Parque Expo do dia 4 de Outubro, a jornada internacional do sector dos transportes do dia 10, as greves de 6 e 7 da ex-Covina ou a greve nacional dos enfermeiros dos dias 12 e 13 de Outubro, ao mesmo tempo que lhe recomendamos que se prepare para a concentração nacional dos trabalhadores da Função Pública a decorrer hoje mesmo, dia 20, a greve nacional dos trabalhadores das pedreiras do próxima dia 27, as greves de todo o sector da justiça (englobando juízes, magistrados dos Ministério Público e funcionários judiciais) dos dias 25, 26 e 27 próximos ou a jornada nacional de luta marcada pela CGTP-IN para 10 de Novembro. Isto também sem sermos exaustivos.
Não acha «conflitualidade social» suficiente, sr. Primeiro-Ministro?
A não ser que, ao invés do seu homónimo grego - que deixou dito «Só sei que nada sei» -, V. Excia nem sabe que não sabe nada disto.