Aritmética e política
As recentes eleições na Alemanha deixaram os comentadores muito nervosos. Os jornais encheram-se de contas de somar e de esquemas «possíveis», de «soluções prováveis» e de futurologia de gabinete, só porque os eleitores tudescos tiveram a ousadia de perturbar a lógica bipolar que preside aos regimes da política de direita instalados pela Europa. O próprio presidente da Comissão Europeia saiu das suas tamanquinhas e veio a terreiro dar conselho: «Um governo instável é o pior cenário para a União Europeia», clamou, ele que sabe muito bem do que fala em termos de instabilidade governativa. É claro que não recorda a sua fuga para Bruxelas, deixando para trás o mais instável de todos os executivos portugueses destas últimas décadas. E fazendo de conta que a instabilidade tem a ver apenas com a aritmética e não com a política.
É que – e isto não vem ao de cima nos números propalados pelos media, que salientam tão só a «vitória» da direita e a derrota da «esquerda» e a impossibilidade técnica de conseguir uma solução governativa que consiga (na estabilidade!) prosseguir na política de direita de Schroeder, que seria agravada pelos «democratas cristãos» ou mesmo pelo próprio SPD se lhe dessem mãos mais livres – ambas as formações foram penalizadas no voto. Tanto a CDU-CSU de Angela Merkel como o SPD de Schroeder perderam em votos, percentagem e mandatos! E, como o Avante! esclarece hoje nas suas páginas sobre a Europa, tratou-se fundamentalmente de uma derrota da política de direita, numas eleições em que as forças e partidos progressistas que a condenavam e se coligaram para as eleições num partido que chamaram de «A Esquerda» estão hoje representadas no parlamento alemão com 54 deputados, facto inédito nesta Alemanha renascida após a anexação da RDA. É de recordar, aliás, que uma recente sondagem veio revelar que apenas 20 por cento do povo que hoje reside nessa parte da Alemanha anexada após a derrota do socialismo apoia o regime em que vive e não lamenta os direitos perdidos com a vitória do capitalismo...
A estabilidade ou a instabilidade é a política que as decide e não os números, que são eles próprios resultado da prática seguida pelos governos. Com estas eleições na Alemanha – tal como com a vitória do NÃO em França – revela-se um despertar da consciência de largas massas de eleitores que se não resignam a uma bipolarização clientelar em que o que varia é o tempero e não a receita. Schroeder e Merkel foram derrotados. Assim colmo Tony Blair e Chirac. Sócrates e Marques Mendes têm razões de sobra para reflectir.
É que – e isto não vem ao de cima nos números propalados pelos media, que salientam tão só a «vitória» da direita e a derrota da «esquerda» e a impossibilidade técnica de conseguir uma solução governativa que consiga (na estabilidade!) prosseguir na política de direita de Schroeder, que seria agravada pelos «democratas cristãos» ou mesmo pelo próprio SPD se lhe dessem mãos mais livres – ambas as formações foram penalizadas no voto. Tanto a CDU-CSU de Angela Merkel como o SPD de Schroeder perderam em votos, percentagem e mandatos! E, como o Avante! esclarece hoje nas suas páginas sobre a Europa, tratou-se fundamentalmente de uma derrota da política de direita, numas eleições em que as forças e partidos progressistas que a condenavam e se coligaram para as eleições num partido que chamaram de «A Esquerda» estão hoje representadas no parlamento alemão com 54 deputados, facto inédito nesta Alemanha renascida após a anexação da RDA. É de recordar, aliás, que uma recente sondagem veio revelar que apenas 20 por cento do povo que hoje reside nessa parte da Alemanha anexada após a derrota do socialismo apoia o regime em que vive e não lamenta os direitos perdidos com a vitória do capitalismo...
A estabilidade ou a instabilidade é a política que as decide e não os números, que são eles próprios resultado da prática seguida pelos governos. Com estas eleições na Alemanha – tal como com a vitória do NÃO em França – revela-se um despertar da consciência de largas massas de eleitores que se não resignam a uma bipolarização clientelar em que o que varia é o tempero e não a receita. Schroeder e Merkel foram derrotados. Assim colmo Tony Blair e Chirac. Sócrates e Marques Mendes têm razões de sobra para reflectir.