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Anabela Fino
Pronto, está decidido, o Governo deu finalmente o pontapé de saída para o choque tecnológico. A ideia deve ter surgido - é um suponhamos - num dos mais de dois telefonemas que António Costa diz ter recebido de José Sócrates, a gozar as suas férias de leão africano no Quénia mas sempre atento ao que se passa no País.
A grande inovação é a criação de uma caixa postal electrónica para todos os cidadãos, cuja terá um ensaio geral em 2006 com a implementação em primeiríssima fase para cada funcionário público.
O negócio, porque de um negócio se trata, está ser tratado entre o Governo e os CTT, e segundo o Ministério das Obras Públicas, citado pelo Expresso do passado sábado, «prevê a criação de um ‘e-mail’ para cada cidadão, à semelhança das caixas de correio físicas hoje existentes».
Os CTT garantem, por seu lado, que «será uma caixa certificada e com garantia de entrega e recepção da correspondência», já que no caso de a mensagem não ser lida «os CTT asseguram a sua entrega física».
O objectivo da iniciativa, diz quem sabe, para além de ser mais um instrumento no combate à fraude e evasão fiscal, é passar a dispor de um endereço oficial não apenas para as notificações do Fisco, mas também da Segurança Social, tribunais, autoridades policiais e outros organismos públicos.
Os CTT garantem que, tal como agora sucede com o correio normal, «os custos da caixa correm por parte de quem envia a correspondência», e ainda que quem não tem Internet em casa poderá aceder ao seu ‘e-mail’ nos balcões da empresa.
A ideia é genial e permitirá ao Governo, com um investimento inicial de «três milhões de euros», simplificar não só os processos administrativos como, e sobretudo, reduzir de forma drástica os custos financeiros com o envio anual de milhares de notificações.
Escusado será dizer que os portugueses acolheram o anúncio desta inovação com urros de alegria, excepção feita à minha amiga Berta, reformada, à Augusta, empregada doméstica, ao senhor Francisco, motorista de autocarro, e à dona Lina, empregada de balcão, que de computadores só sabem que acumulam pó e fazem mal à vista.
Estes velhos do Restelo recusam-se a entender que o futuro está na web - em matéria de redes só ouviram falar, em tempos que já lá vão, das de cabelo e das de pesca - e que não há nada melhor do que ter a burocracia ao alcance de um clique.
É bem verdade que menos de um terço dos portugueses possuem computador, e muitos menos ainda têm acesso à Internet, que diga-se em abono da verdade custa em Portugal cinco vezes mais do que no resto da União Europeia, mas isso são miudezas sem importância ou, como dizia um senhor da PT, salvo erro, a justificar preços, que os portugueses é que ganham mal. Mas o que é isso comparado com o progresso, a tecnologia, o desenvolvimento?
Podemos já antecipar as alegres tertúlias que terão lugar nas estações dos CTT, transformados por esse País fora em animados centros de convívio e formação, os acalorados debates sobre o preço das tarifas - que o Estado paga a caixa de correio mas o cidadão paga a ligação para o poder receber -, as trocas de impressões sobre o processo, enfim, uma verdadeira participação nos desígnios nacionais. E tudo isto com um simples www.cátespero.pt.


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