Ó vizinho....

Anabela Fino
A península ibérica está a sofrer uma da piores secas das últimas décadas. A situação é suficientemente grave para que a ministra do Ambiente do país vizinho, Cristina Nabona, se tenha deslocado a Lisboa, onde há dias conferenciou com o seu homólogo, Nunes Correia. Rezam as crónicas que «só em nome da boa relação entre vizinhos» foi possível às partes acordarem o valor dos caudais mínimos a lançar no Douro até final de Setembro (15 por cento menos do que a Espanha estaria obrigada se não tivesse accionado o regime de excepção). Terá sido porventura também em nome da boa vizinhança que Portugal acedeu - apesar de mais de dois terços do País estar em situação de seca extrema - a fornecer água do Alqueva aos agricultores espanhóis de Celles e Vila Nueva del Fresno.
O governo português, a quem não passou certamente pela cabeça mandar alguém a Madrid tentar encontrar soluções para a falta de água nos rios do lado de cá da fronteira, apesar das consequências poderem ser dramáticas - refira-se, a título de exemplo, o alerta dado pela Associação de Regantes da lezíria Grande, segundo a qual o elevado nível de salinização do Tejo, decorrente do baixo caudal do rio e das marés altas, ameaça seis mil hectares de culturas de arroz, milho, tomate, beterraba -, o governo português, dizia, não parece particularmente preocupado. Nem com a água - melhor dizendo, a falta dela -, nem com os prejuízos da agricultura, nem com a concorrência espanhola.
Entre um passeio e outro a acompanhar comissários europeus, a única preocupação parece ser a de não declarar o regime de calamidade, que obrigaria a alargar os cordões à bolsa, fazer muitas promessas e ficar à espera que chova. Como de Bruxelas também não pinga nada, o mínimo que seria de esperar era que se protegesse a escassa produção nacional, ao invés de colocar a água do Alqueva - que nada rega em solo português porque continuam por construir as infra-estruturas de ligação ao «maior lago artificial da Europa» - ao serviço dos agricultores da Estremadura espanhola que depois virão competir no mercado com os agricultores portugueses.
Não se trata de negar água a populações, sublinhe-se, mas de usar um recurso vital como arma económica para ajudar à morte do defunto, enquanto nos gabinetes e fora deles se discutem projectos megalómanos de tgvs e aeroportos.
Enquanto isso, avançam os projectos de privatização da água, que um dia destes não se nega a ninguém... desde que tenha dinheiro para pagar.


Mais artigos de: Opinião

Hiroxima – 60 anos

Em 6 de Agosto de 1945 o tremendo poder da energia atómica foi utilizado pela primeira vez na História. Não para fins pacíficos, mas como arma de guerra. Não contra alvos militares, mas contra cidades. Contra um país à beira do colapso e que já procurava a rendição. Como já muitas vezes se disse, o crime de Hiroxima e...

«Velhos tempos»

Arriscando-me a que um dia destes algum jornal da cada vez mais escassa panóplia de folhas venha a considerar este texto como escrita saudosista da autoria de um perigoso dinossauro estalinista, gostaria, ainda assim de recordar algo da minha experiência pessoal, não encontrada em folhetos de propaganda mas no lugar dos...

Três palavras, um sistema

«Atirar a matar»: eis a ordem dada pelo governo de Blair à polícia britânica. E seria difícil dizer tanto com tão poucas palavras. Mais do que uma ordem, estas três palavras constituem um lema - o lema do sistema dominante – e sintetizam exemplarmente a situação de crescente violência, de crescente brutalidade, de...

Que é isto?!...

Vasco Sousa Coutinho, engenheiro e ex-administrador da CP, fez há dias, no Público, uma interessante «viagem» pelo famoso combóio de alta velocidade, o TGV. Tudo começa no início dos anos 90, quando «o Governo decidiu modernizar a linha ferroviária do Norte», de forma a que a viagem Lisboa-Porto se fizesse «em duas...

Sacrifícios, privilégios e governos

«As grandes fortunas a subir, os salários dos trabalhadores a diminuir, o desemprego a disparar». Eis uma frase que podíamos ter escrito há vários anos e que continua a constituir uma grande verdade.