Hiroxima – 60 anos

Jorge Cadima

Hiroxima e Nagasaqui mostram que o imperialismo é capaz dos maiores crimes.

Em 6 de Agosto de 1945 o tremendo poder da energia atómica foi utilizado pela primeira vez na História. Não para fins pacíficos, mas como arma de guerra. Não contra alvos militares, mas contra cidades. Contra um país à beira do colapso e que já procurava a rendição. Como já muitas vezes se disse, o crime de Hiroxima e Nagasaqui não foi tanto o último episódio da II Guerra Mundial, como o primeiro episódio da «Guerra Fria». O número de mortos provocados conta-se pelas centenas de milhar. Recentemente, o ex-Ministro da Defesa dos EUA, Robert McNamara, lembrou que «quase 100 por cento das vítimas de Hiroxima e Nagasaqui» eram civis (Foreign Policy, Maio/Junho 2005).

O 60º aniversário do crime nuclear dos EUA assinala-se quando o imperialismo norte-americano está empenhado numa ofensiva para impor a sua hegemonia planetária. No decurso desta ofensiva, os senhores da guerra em Washington já mostraram ser capazes de usar mortíferas armas não convencionais, incluíndo armas contendo urânio empobrecido. A possibilidade de usar armas nucleares tem sido referida inúmeras vezes na comunicação social, de forma cada vez mais banalizada. Estão em curso planos para desenvolver novas armas nucleares, como as designadas «bunker busters», cujo objectivo declarado é o de usar ogivas nucleares para perfurar o solo e atingir alvos subterrâneos. Há um mês, o Senado dos EUA aprovou o financiamento de investigação com esse fim. Um despacho da Associated Press de 2.7.05 informa que a Senadora da Califórnia, Dianne Feinstein, considerou que se estava a «reabrir as portas do nuclear» e que «um bunker buster não consegue penetrar a uma profundidade suficiente para impedir vítimas em massa, com o lançamento para a atmosfera de milhões de pés cúbicos de materiais radioactivos». A mesma notícia informa que, a pedido do Congresso dos EUA, um painel da Academia Nacional das Ciências elaborou um estudo onde conclui que esse tipo de arma nuclear de penetração do solo provocaria provavelmente o mesmo número de mortos e feridos que uma bomba de potência análoga que fosse lançada à superfície, «entre alguns milhares e um milhão, consoante a sua potência e alvo». Recorde-se que a utilização deste tipo de armas atómicas foi explicitamente previsto no documento de 2002 contendo a doutrina nuclear dos EUA, o Nuclear Posture Review. Esse documento indica os nomes de seis países que podem vir a ser alvos de ataques nucleares pelos EUA. Entre eles, a China e a Rússia. Um «confronto militar sobre o estatuto de Taiwan» é explicitamente indicado nesse documento como um exemplo de «contingência imediata» para a qual os EUA «devem estar preparados» ao «definirem-se os requisitos para as capacidades de ataque nuclear». É o antigo «falcão» e ex-Ministro McNamara que, ao discursar na recente Conferência da ONU sobre o Tratado de Não-Proliferação, afirmou: «Se tivesse que caracterizar, numa única frase, as políticas nucleares dos EUA e da NATO, diria que são imorais, ilegais, desnecessárias do ponto de vista militar e muito, muito perigosas» (Reuters, 24.5.05).

Hiroxima e Nagasaqui mostram que o imperialismo é capaz dos maiores crimes. A actual camarilha dirigente do imperialismo norte-americano já mostrou não ter quaisquer escrúpulos para alcançar os seus desígnios de dominação planetária. Os seus planos deparam-se hoje com enormes dificuldades, como resultado da resistência que geraram. O pântano em que se atolaram no Iraque está a provocar enormes dificuldades no plano económico e na própria capacidade de combate das forças armadas norte-americanas. É cada vez mais evidente que cresce a resistência, mesmo entre governos que foram aliados dos EUA. Mas estas dificuldades acrescidas podem conduzir o imperialismo a aventureirismos ainda mais criminosos. Cabe aos povos travar quaisquer desígnios nesse sentido. Para que nunca mais seja possível o pesadelo nuclear.


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