Nas garras da NATO

Luís Carapinha

Condoleezza incluiu Tachkent na lista dos desrespeitadores dos «direitos do homem»

Em Kiev esteve há dias o secretário-geral da NATO. A visita de Jaap de Hoop Scheffer foi de rotina, para tomar o pulso ao andamento do programa de incorporação da Ucrânia na aliança militar transatlântica e prescrever as respectivas recomendações.
A chegada ao poder do novo presidente ucraniano, Iúchenko, no auge de um processo marcado pela ostensiva interferência do imperialismo e a manipulação política, cavalgando o descontentamento social acumulado durante uma década de restauração capitalista, conferiu um novo impulso à via de adesão da Ucrânia à NATO – à qual, também, o seu desacreditado predecessor, Kutchma, prestara um importante contributo. Paralelamente, acentuou-se a subordinação dos interesses nacionais às potências imperialistas, com os EUA à cabeça.

Pela sua importância e dimensão, a Ucrânia desempenha um papel crucial, de «posto avançado», numa das frentes activas da expansão imperialista – o arco que vai do Báltico ao Mar Negro, do Cáspio à Ásia Central. Na mira dos EUA e da NATO estão as rotas energéticas que sulcam o espaço euro-asiático, e os objectivos estratégicos concretos da Rússia e, mais além, da China. Ainda em 1999, a responsável do departamento de estado, M. Albright considerara a Ucrânia uma das «quatro democracias chave» no mundo (com a Colômbia, Indonésia e Nigéria). Em Outubro, na véspera das eleições ucranianas, o então subsecretário da defesa, Wolfowitz defendera a «necessidade» da entrada da Ucrânia na NATO e a importância de ampliar os seus «valores» a toda a Europa.
Foi em nome da estratégia belicista comum que os EUA/UE patrocinaram na Ucrânia aquela que os media capitalistas perversa e abusivamente qualificaram de “revolução” – apesar de «laranja», dentro da estirpe das «revoluções floridas», o formato descartável em voga naquelas paragens. Basicamente, havia que mudar, para deixar na mesma o essencial, o poder de classe da grande burguesia: mudaram-se os actores, «lavando-se a cara» ao poder político e descomprimindo a tensão social, redistribui-se a propriedade entre clãs e grupos privados concorrentes, recentrou-se o país nos eixos de uma ucrainização mais compadecida com as tarefas da nova etapa, que não recusa o concurso de um nacionalismo com raízes e contornos pró-fascistas.

Sob o aplauso dos seus mentores, a Ucrânia, país socialmente devastado, converte-se num farol regional da «democracia». Em articulação com a Geórgia, também ela nas garras da NATO, propõe-se velar pela difusão dos «direitos humanos» na C.E.I. Para já o alvo prioritário é a Bielorrússia, para Washington a «última ditadura da Europa»; país nefasto que dispensou a «ajuda» do FMI, resiste à entrega do seu aparelho produtivo ao grande capital e é contra o alargamento da NATO…
Mas nem tudo são rosas neste percurso. Os ucranianos mantêm-se maioritariamente avessos à entrada do seu país na NATO, o que conjugado com o lento desvanecer da euforia laranja aumenta a preocupação dos círculos imperialistas. Atenta ao problema, a comissão Ucrânia-NATO anunciou recentemente um programa de medidas a breve prazo, preconizando a «melhoria da informação da opinião pública» e a «eliminação dos efeitos socioeconómicos negativos das reformas». E há, depois, a perturbadora inversão no Uzbequistão, que anunciou em Maio a saída oficial do GUAM (Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão e Moldova) – precisamente uma semana antes da irrupção dos tumultos em Andijan) –, introduzindo, mais tarde, restrições à utilização da base militar norte-americana no seu território. A situação é tão grave para a estratégia dos EUA, que o Congresso já votou a exclusão do país do programa de financiamento militar externo e Condoleezza incluiu Tachkent na lista dos desrespeitadores dos «direitos do homem».

Numa época e região em que se sentem ainda de modo agudo os efeitos das derrotas do socialismo, impõe-se quebrar o tabuleiro de xadrez do “grande jogo” da geopolítica. Os povos e as massas têm uma palavra a dizer, e uma palavra determinante. Para isso é preciso fortalecer os partidos comunistas e todas as forças revolucionárias e progressistas consequentes, mobilizando e organizando os trabalhadores por um futuro melhor, com os ideais de uma sociedade sem exploradores e explorados no horizonte.


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