Adeus, soldado Vasco

Aurélio Santos
Quando ouvi a notícia da morte, andava à minha volta uma dessas borboletas de S.to António, ternurentas, de vôo rasante e inquietante, que as nossas avós ensinavam a não matar por anunciaren o bom tempo quente dos verões de colheitas generosas.
Foste general-soldado, ou soldado-general? Sem dúvida as duas coisas. Nem foi por acaso que o povo te adoptou como «companheiro». E te tratou sempre por Vasco. Carinhosamente. Gritando repetidamente o teu nome nas ruas. Incitando-te força, força, pela defesa de todos os direitos, às vezes nem sabidos e há tanto merecidos e negados. E certo que estavas a consegui-lo.
General Vasco, não esquecemos que os generais não vencem sempre todas as batalhas . Como capitão de Abril, como Primeiro Ministro, venceste muitas. Tantas que mesmo depois de 30 anos ainda há quem tenha medo e não perdoe o que conseguiste ganhar. E houve também os que não tiveram a coragem de assumir o quanto te devem.
Deixaste memória. Memória legislativa que enraiveceu a direita por se sentir impotente contra leis que o povo há muito reclamava na luta contra os poderes que o oprimiram e clandestinizaram no seu próprio país, tentando conter ideias e lutas na prisão.
Nas nacionalizações, na reforma agrária, no controlo operário, era o povo que exigia direitos, que tiveram voz na lei com o teu nome. Está lá a tua assinatura: «Primeiro Ministro –Vasco Gonçalves».
Contigo erguemos cabeça, ganhando a possibilidade de afirmar plenamente a nossa dignidade humana, como pessoas e como povo. Num direito histórico que ficará para sempre como marco e padrão de Democracia.
Como memória ficará também a tua personalidade, tão alargada como generosa. Foste o Primeiro Ministro a quem o povo tratou por tu e pelo primeiro nome.Tão naturalmente que ninguém na rua se lembraria de tratar-te por Vossa Excelência.«Com ele tive o salário mínimo e o meu primeiro subsídio de férias».«Nunca antes dele tinha tomado o gosto da carne de vaca». Entre muitas outras, frases ouvidas no Alto de S. João.
Saudosismo? Não. Saudades tuas, sim. Contigo a Liberdade foi vivida com alegria, no orgulho popular de a ter ganho e a decisão de a defender.
Foi bom ter-te entre os que ousaram fazer Abril e persistem em defendê-lo e continuá-lo. Quiseram denegrir-te os que no seguimento dos velhos senhores, se empenharam em derrubar e atrasar o país e o povo. Mas sabes que este povo nem sempre é sereno. E há épocas em que os governantes preferem ir-se embora, para não serem atirados pela janela.
As tuas batalhas não terminaram, soldado Vasco, capitão de Abril. Nem houve rendição. A guerra continua. Havemos de vencê-la, com um número mínimo de baixas.
Adeus, companheiro Vasco.
A tua muralha ainda vai fazer correr muita tinta. Mas também ver erguerem-se muitas mãos em luta.
O aço não perde facilmente a têmpera.


Mais artigos de: Opinião

De rastos

Gostaria, como certamente todos compreenderão, de falar de outras coisas. Muito mais importantes. Muito mais mobilizadoras. Muito mais voltadas para o futuro, recolhendo embora as importantíssimas lições e vivências do passado. Ou, então, de, mais uma vez, lavrar um protesto, por ter visto e ouvido muitas vezes gente...

Mais dos mesmos

O Governo de José Sócrates não tem poupado esforços, com a prestimosa ajuda dos comentadores de serviço, para fazer crer que «desta vez» o sacrifício toca a todos para combater o ‘monstro’ do défice.A primeira fase da campanha foi a da alegada surpresa do executivo sobre os resultados do estudo encomendado ao Banco de...

A cimeira dos contaminados

Poucos dias antes da realização da recente cimeira dos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, Durão Barroso empregou o termo «contaminação» para designar a crescente oposição dos eleitores à chamada «constituição europeia». Seria difícil exprimir de uma forma mais clara o desprezo da burocracia de Bruxelas pela...

Listas

Segundo um levantamento oficial realizado em 2002, havia então 123 mil portugueses em «lista de espera» para realizarem uma cirurgia, problema que o então ministro da Saúde, o extraordinário Luís Filipe Pereira (pois só pode ser extraordinário um ministro que transita, directamente, do privadíssimo «Grupo Mello Saúde»...

Uma luta que é de todos

Os portugueses assistiram nas últimas semanas, a um novo impulso no desenvolvimento de uma ofensiva que se tem vindo a prolongar no tempo contra os trabalhadores da Administração Pública.