Sem carcassas e sem auto-estima

Aurélio Santos
Sentiu-se frustrado e culpado quando ouviu aquela notícia. A que falava da lição proferida pelo nosso presidente na Universidade de Oxford, na qual observou com acuidade – digamos mesmo, acutilância – que o que nos falta para que a sociedade portuguesa avance é o sentido da auto-estima.
Sentiu-se um desajustado que não ajudava em nada à mudança social necessária.
No estômago sentia aquela dôr de roer por dentro que a fome dá, e até faz ruídos que incomodam quando estamos em frente de outras pessoas, disfarçando com um sorriso, como se o barulho do nosso estômago vazio viesse de fora.
E pensou: o que tu tens é falta de auto-estima.
Com aquela na cabeça de não poder contribuir para salvar a sociedade portuguesa por falta de auto-estima, passou por três pequenos restaurantes – na sua rua não havia grandes – com petiscos anunciados à porta.
Pensou mais uma vez: o que me falta é auto-estima...
A sua ambição mais próxima, digamos mais real, mais urgente, era comprar duas carcassas, se possível cozidas em forno de lenha – ainda mantinha o gosto por algunas pequenas regalias – e encher depois o estômago com copos de água, que só seria cortada no dia seguinte...
Venceu o acanhamento e entrou na mercearia da esquina, esperou que os outros clientes saíssem, aproximou-se do sr. Silva e disse com coragem: «Pode dar-me duas carcassas? Prometo que lhas pago amanhã»...
A resposta foi áspera.
«Olhe, amigo, está a ver aquele letreiro? Neste estabelecimento não se fia. Já tenho muita gente a dever-me. E eu sei que o sr. está desempregado».
Não teve outro remédio senão seguir caminho.
Viu um letreiro numa porta: «Precisa-se mulher de limpeza».
Bateu à porta. E garantiu que podia limpar tudo, do tecto ao chão.
A senhora, sorridente e simpática, disse que nunca tinha visto um homem a limpar bem.
Afirmou-lhe que sabia fazer tudo.
E ela respondeu: «Está bem, apareça segunda-feira ao meio-dia».
Era sábado à tarde.
Ele era um dos 300 mil portugueses que a estatística descobriu agora que passam fome, entre os dois milhões de portugueses estatisticamente dados como pobres, a par dos 450 mil desempregados devidamente registados.
Voltou para casa.
Sem as carcassas.
Sem água no dia seguinte.
Sem saber como salvar a Pátria.
E sem auto-estima.


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