A propósito da morte de João Paulo II
A prolongada doença do papa e a sua morte foram objecto de uma das maiores coberturas mediáticas à escala planetária.
A teologia da libertação (...) representava um perigo sério para a igreja oficial
Como vem sendo hábito nestas ocasiões, tudo, rigorosamente tudo, serviu de pretexto para a notícia. Assistimos a uma overdose comunicacional muitas vezes acompanhada de um exagerado sensacionalismo.
Daí resultou uma quase unanimidade de comentários e análises que transformaram João Paulo II – Chefe de Estado do Vaticano e da Igreja Católica – num homem cheio de virtudes: a aproximação entre igrejas e religiões, a expansão da igreja pelo mundo e particularmente entre os jovens, a luta pela paz.
Mas a sua «coroa de glória» é, sem dúvida, o papel que desempenhou na «queda do comunismo e a instauração das liberdades a leste». Sobre isto, muito foi escrito mas, seguramente, muita coisa falta esclarecer. É hoje uma evidência o papel desempenhado pelo Papa em aliança com Reagan, Gorbatchev e os serviços secretos ocidentais, com relevo para a CIA. Hoje sabe-se que grande parte da imensidão de fundos canalizados para os «combatentes da liberdade» a leste passaram pela Santa Sé.
Não ignorando que a sua acção também comportou aspectos positivos, como a oposição à guerra no Iraque, parece-nos importante trazer à discussão outros elementos que tendem a ser esquecidos.
Um papa mediático
Este não terá sido o primeiro papa a descobrir as vantagens da utilização dos grandes meios de comunicação, mas foi seguramente aquele que melhor os soube utilizar. A televisão passou a ser um instrumento que, em simultâneo, permitia que a mensagem papal chegasse a todo o mundo, sem intermediários. A primeira experiência neste domínio deu-se em Junho de 1987, com uma transmissão, em simultâneo para vinte e sete países, com um recorde de audiências de «dois mil milhões de almas»!
A partir daí tudo passou a ser calculado tendo em conta a televisão...
Um papa disciplinador
Quando João Paulo II chegou ao poder, a igreja vivia um período de alguma perturbação e contestação interna. O Papa pôs tudo na ordem!
A teologia da libertação, nascida em Medellín, em 1968, representava um perigo sério para a igreja oficial e, para além de ter ganho raízes fundas na América Latina, ameaçava propagar-se...Esta corrente, que advogava uma igreja de proximidade, empenhada e interveniente do lado da liberdade, pelos direitos políticos e sociais e contra a exploração, representava um perigo para os americanos, para os regimes ditatoriais e para a igreja oficial.
«Quando dou aos pobres, sou um santo; quando pergunto porque é que os pobres têm fome, sou comunista» dizia D. Helder Câmara, uma das grandes figuras da igreja dos pobres latino-americana. Foi com o pretexto de banir a subversão comunista e marxista que João Paulo II, acompanhado pelo que de mais reaccionário e retrógrado existia na hierarquia da igreja, se empenhou em banir esta corrente, promovendo uma significativa alteração na correlação de forças na hierarquia da igreja na América Latina. Também nesta ofensiva tiveram papel determinante as viagens do Papa, marcadamente políticas.
A este propósito, convém salientar a viagem do Papa à Nicarágua, em que este, no aeroporto de Manágua, repreendeu publica e duramente um padre católico militante da Frente Sandinista, por este se envolver em «política». O mesmo rigor nunca foi visto relativamente a outros membros da igreja comprometidos com as sangrentas ditaduras da América Latina... Acrescente-se que em 1987, no Chile de Pinochet, a sua postura foi mais contida: nem uma palavra sobre a violenta ditadura fascista... apenas uma referência «velada», ao problema dos «desaparecidos»...
No anos oitenta, na Indonésia e em Timor (cujo solo não beijou...), e mais tarde em Portugal, o Papa nada disse sobre aquele território. Só muito mais tarde, e perante o incómodo que o problema acarretava para as igrejas portuguesa e timorense, João Paulo II emendou a mão...
Que herança para a Igreja Católica e para o mundo?
Fica uma igreja cuja hierarquia é dominada pela Opus Dei - da qual foi fundador José Maria Escrivá, franquista convicto que foi transformado em santo pela mão de João Paulo II - , moldada à semelhança do seu líder, mais inflexível e intolerante, que ignora os que se lhe opõem. Fica uma doutrina oficial que, ao arrepio da opinião e da vontade de milhões de católicos, se manifesta contra os direitos das mulheres e a possibilidade destas exercerem o sacerdócio, contra o casamento de padres, o divórcio, os homossexuais, o preservativo e demais métodos contraceptivos;
Fica um discurso que dá umas beliscadelas no capitalismo, que fala das questões sociais, mas não tem uma palavra coerente para as causas dos males que este provoca.
Sobrevive, apesar de tudo uma outra igreja, empenhada nas causas sociais, atenta ao mundo e à vida, empenhada num mundo melhor.
Daí resultou uma quase unanimidade de comentários e análises que transformaram João Paulo II – Chefe de Estado do Vaticano e da Igreja Católica – num homem cheio de virtudes: a aproximação entre igrejas e religiões, a expansão da igreja pelo mundo e particularmente entre os jovens, a luta pela paz.
Mas a sua «coroa de glória» é, sem dúvida, o papel que desempenhou na «queda do comunismo e a instauração das liberdades a leste». Sobre isto, muito foi escrito mas, seguramente, muita coisa falta esclarecer. É hoje uma evidência o papel desempenhado pelo Papa em aliança com Reagan, Gorbatchev e os serviços secretos ocidentais, com relevo para a CIA. Hoje sabe-se que grande parte da imensidão de fundos canalizados para os «combatentes da liberdade» a leste passaram pela Santa Sé.
Não ignorando que a sua acção também comportou aspectos positivos, como a oposição à guerra no Iraque, parece-nos importante trazer à discussão outros elementos que tendem a ser esquecidos.
Um papa mediático
Este não terá sido o primeiro papa a descobrir as vantagens da utilização dos grandes meios de comunicação, mas foi seguramente aquele que melhor os soube utilizar. A televisão passou a ser um instrumento que, em simultâneo, permitia que a mensagem papal chegasse a todo o mundo, sem intermediários. A primeira experiência neste domínio deu-se em Junho de 1987, com uma transmissão, em simultâneo para vinte e sete países, com um recorde de audiências de «dois mil milhões de almas»!
A partir daí tudo passou a ser calculado tendo em conta a televisão...
Um papa disciplinador
Quando João Paulo II chegou ao poder, a igreja vivia um período de alguma perturbação e contestação interna. O Papa pôs tudo na ordem!
A teologia da libertação, nascida em Medellín, em 1968, representava um perigo sério para a igreja oficial e, para além de ter ganho raízes fundas na América Latina, ameaçava propagar-se...Esta corrente, que advogava uma igreja de proximidade, empenhada e interveniente do lado da liberdade, pelos direitos políticos e sociais e contra a exploração, representava um perigo para os americanos, para os regimes ditatoriais e para a igreja oficial.
«Quando dou aos pobres, sou um santo; quando pergunto porque é que os pobres têm fome, sou comunista» dizia D. Helder Câmara, uma das grandes figuras da igreja dos pobres latino-americana. Foi com o pretexto de banir a subversão comunista e marxista que João Paulo II, acompanhado pelo que de mais reaccionário e retrógrado existia na hierarquia da igreja, se empenhou em banir esta corrente, promovendo uma significativa alteração na correlação de forças na hierarquia da igreja na América Latina. Também nesta ofensiva tiveram papel determinante as viagens do Papa, marcadamente políticas.
A este propósito, convém salientar a viagem do Papa à Nicarágua, em que este, no aeroporto de Manágua, repreendeu publica e duramente um padre católico militante da Frente Sandinista, por este se envolver em «política». O mesmo rigor nunca foi visto relativamente a outros membros da igreja comprometidos com as sangrentas ditaduras da América Latina... Acrescente-se que em 1987, no Chile de Pinochet, a sua postura foi mais contida: nem uma palavra sobre a violenta ditadura fascista... apenas uma referência «velada», ao problema dos «desaparecidos»...
No anos oitenta, na Indonésia e em Timor (cujo solo não beijou...), e mais tarde em Portugal, o Papa nada disse sobre aquele território. Só muito mais tarde, e perante o incómodo que o problema acarretava para as igrejas portuguesa e timorense, João Paulo II emendou a mão...
Que herança para a Igreja Católica e para o mundo?
Fica uma igreja cuja hierarquia é dominada pela Opus Dei - da qual foi fundador José Maria Escrivá, franquista convicto que foi transformado em santo pela mão de João Paulo II - , moldada à semelhança do seu líder, mais inflexível e intolerante, que ignora os que se lhe opõem. Fica uma doutrina oficial que, ao arrepio da opinião e da vontade de milhões de católicos, se manifesta contra os direitos das mulheres e a possibilidade destas exercerem o sacerdócio, contra o casamento de padres, o divórcio, os homossexuais, o preservativo e demais métodos contraceptivos;
Fica um discurso que dá umas beliscadelas no capitalismo, que fala das questões sociais, mas não tem uma palavra coerente para as causas dos males que este provoca.
Sobrevive, apesar de tudo uma outra igreja, empenhada nas causas sociais, atenta ao mundo e à vida, empenhada num mundo melhor.