O tapete voador

Leandro Martins
A Maçonaria tem estado na berlinda. Embora toldada e obscurecida pela morte do Papa - até Rainier aguardou a sua vez para morrer e o príncipe Carlos adiou o casamento por que esperava há umas décadas -, a cerimónia do encerramento do congresso maçónico não passou despercebida para os portugueses, a «confirmar» a garantia dada já pela organização de que o segredo já não é a alma do seu negócio. É claro que não faz mal nenhum, antes acrescenta uma aura de magia aos maçónicos, saber a gente das trivialidades litúrgicas com que se enroupam. O que não sabem os leigos são as receitas dos cozinhados secretos que fazem da Maçonaria um ainda poderoso meio de influência económica e política nas sociedades ocidentais.
A SIC, porém, fez estalar um escândalo ao revelar que nesse jantar de encerramento «foi entregue ao grão mestre», o inefável António Arnaut, um «antigo dossier da Legião Portuguesa com mais de 3600 nomes de agentes e informadores da Pide».
Garante a SIC que durante a cerimónia - isto com a Maçonaria tem de ter sempre cerimónias - estavam presentes pessoas estranhas à congregação - artistas, empregados, familiares, o que terá contribuído para que o dossier e a sua entrega não tenha ficado no silêncio dos deuses.
Diz-se que o documento, onde constam por ordem alfabética e por distrito os nomes dos criminosos do fascismo, foi encontrado no Palácio Maçónico, um edifício que antes do derrubamento da ditadura pertencera à Legião Portuguesa.
A descoberta foi «melindrosa», diz a SIC. E explica o melindre. É que alguns desses criminosos estão ainda vivos. E andam por aí. Por exemplo padres, o que não é novidade, dada a santa colaboração que a hierarquia católica prestou ao salazarismo. Que melindre é este que prefere os mortos aos vivos e perpetua assim a «confiança» que os cidadãos ainda depositam em gente que os terá traído - vizinhos, médicos, colegas de trabalho e... padres que ouviram certamente as confissões de tantos antifascistas?
Arnaut, o grão-meste do Grande Oriente Lusitano, ele próprio em tempos um antifascista e depois ministro PS - um dos menos maus, assinale-se -, prefere o segredo. E, em lugar de prestar um serviço à comunidade em que vive, foi enfiar o rol dos criminosos num... banco. Como quem atira o lixo para debaixo do tapete. Oxalá que este seja um tapete voador.


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