Sob controlo
Uma das características mais evidentes dos governantes portugueses é a de estarem sempre dispostos a tentar fazer crer, quando surgem problemas, que têm tudo sob controlo.
O País vive uma seca como não há memória nos últimos cem anos? Sim, mas nada de alarmes desnecessários. Poupe-se na água do autoclismo e da lavagem dos dentes e não se pense mais no assunto, que alguém nalgum gabinete ministerial está já a treler o famoso plano hidrográfico nacional, o tal que ficará pronto um ano destes para discutir com nuestros hermanos - que há muito deram a obra como pronta e estão a gerir os seus (e nossos) recursos com a legitimidade de quem não guarda para amanhã o que pode fazer hoje - como partilhar a água quando a água não cai do céu. No interim, para não prejudicar o turismo, raciona-se o abastecimento às populações e deixa-se morrer o gado à míngua, enquanto se rega alegremente os campos de golfe do Alentejo e Algarve e se pondera a criação de mais uns quantos postos de trabalho contratando seguranças, não vão os rebanhos ter a veleidade de insistir na prática desportiva da pastorícia.
O País não se desenvolve e está a ficar cada vez mais longe dos outros parceiros da União Europeia? Calma minha gente, nada de sobressaltos. Com o choque tecnológico e o ensino obrigatório do inglês desde a mais tenra idade tudo se vai resolver, até porque os burros velhos que não forem capazes de aprender a língua de Shakespear estão condenados a ficar paulatinamente em estado de choque, o que dá tempo à próxima geração de se desenvolver sem o stress do ‘to be or not to be’ (ser ou não ser) desempregado, o que no futuro não deixará de ser um promissor factor de desenvolvimento.
O mundo está ameaçado com uma pandemia provocada pela gripe das aves? O País corre o risco de ser afectado pela febre hemorrágica que já dizimou mais de centena e meia de pessoas numa província de Angola? Não há motivos para inquietações, está tudo sob controlo, garante o ministro da Saúde, a lembrar um outro que em plena crise das ‘vacas loucas’ convocou a imprensa para testemunhar a deglutição de um bife. As milhares de pessoas que diariamente aterram nos aeroportos nacionais, vindas sabe-se lá de onde, não vislumbram sequer um aviso, um papelinho que seja, alertando para a necessidade de medidas profiláticas, e ainda bem que assim é para evitar temores desnecessários.
O governo vela por nós e, se for caso disso, não faltará um discurso de Sócrates a apresentar condolências à família e uma proposta de referendo para decidir o suicídio colectivo.
O País vive uma seca como não há memória nos últimos cem anos? Sim, mas nada de alarmes desnecessários. Poupe-se na água do autoclismo e da lavagem dos dentes e não se pense mais no assunto, que alguém nalgum gabinete ministerial está já a treler o famoso plano hidrográfico nacional, o tal que ficará pronto um ano destes para discutir com nuestros hermanos - que há muito deram a obra como pronta e estão a gerir os seus (e nossos) recursos com a legitimidade de quem não guarda para amanhã o que pode fazer hoje - como partilhar a água quando a água não cai do céu. No interim, para não prejudicar o turismo, raciona-se o abastecimento às populações e deixa-se morrer o gado à míngua, enquanto se rega alegremente os campos de golfe do Alentejo e Algarve e se pondera a criação de mais uns quantos postos de trabalho contratando seguranças, não vão os rebanhos ter a veleidade de insistir na prática desportiva da pastorícia.
O País não se desenvolve e está a ficar cada vez mais longe dos outros parceiros da União Europeia? Calma minha gente, nada de sobressaltos. Com o choque tecnológico e o ensino obrigatório do inglês desde a mais tenra idade tudo se vai resolver, até porque os burros velhos que não forem capazes de aprender a língua de Shakespear estão condenados a ficar paulatinamente em estado de choque, o que dá tempo à próxima geração de se desenvolver sem o stress do ‘to be or not to be’ (ser ou não ser) desempregado, o que no futuro não deixará de ser um promissor factor de desenvolvimento.
O mundo está ameaçado com uma pandemia provocada pela gripe das aves? O País corre o risco de ser afectado pela febre hemorrágica que já dizimou mais de centena e meia de pessoas numa província de Angola? Não há motivos para inquietações, está tudo sob controlo, garante o ministro da Saúde, a lembrar um outro que em plena crise das ‘vacas loucas’ convocou a imprensa para testemunhar a deglutição de um bife. As milhares de pessoas que diariamente aterram nos aeroportos nacionais, vindas sabe-se lá de onde, não vislumbram sequer um aviso, um papelinho que seja, alertando para a necessidade de medidas profiláticas, e ainda bem que assim é para evitar temores desnecessários.
O governo vela por nós e, se for caso disso, não faltará um discurso de Sócrates a apresentar condolências à família e uma proposta de referendo para decidir o suicídio colectivo.