Utopias

Leandro Martins
Uma das fragilidades de muitos intelectuais portugueses - dos outros não falo por ignorância dos seus hábitos de pensar e intervir - é a de fingirem saber de tudo ou, pelo menos, esconderem debilidades culturais ou, pura e simplesmente, fazerem de conta que sabem do que falam. É assim possível que, por exemplo, Cavaco Silva tivesse falado de Tomás Mann a propósito da Utopia de Tomás Moro - Morus é mais bonito, que sabe a Latim - e que Santana Lopes tenha aludido a concertos de violino de Chopin. A palavra é grátis, quase ninguém pede responsabilidades, e há gente para quem a ribalta justifica tudo.
Dir-me-ão que Cavaco e Santana são apenas o senhor Silva e o senhor Lopes, como diria o Alberto João, que não se trata de intelectuais mas apenas de políticos de direita. É certo. Mas não deixam de contar entre os doutores e engenheiros de que, saloiamente, se constrói a imagem da sociedade visível nas capas de revistas e nos concursos de televisão. Sem doutorices não costumam aparecer em lado algum a não ser que se trate de tias de estimação que alindam as páginas posando a par do político ou do banqueiro, do estilista ou do chefe de cozinha ou do entreteiner de serviço. A Assembleia da República está cheia de cursos e já se diz que o Governo de Sócrates é bom porque metade dos ministros são catedráticos.
A este propósito recolhemos no Expresso uma confissão de Isabel Pires de Lima, nova ministra da Cultura, em que se desculpa de ter sido membro do PCP. Foi-o, disse, porque então acreditava na utopia. Deixou de o ser por não acreditar mais naquilo.
É claro que não pensamos que Pires de Lima algum dia dissesse que a Utopia tinha sido escrita por Tomás Mann. Mas já duvidamos que tenha lido a obra de Morus e não saiba distinguir utopia de projecto. Livro espantoso para a época, em que o sacerdote católico inventava um mundo onde tudo se organizava a nível de grande humanidade e assim punha em causa o poder dos poderosos e a raiz divina do poder, o livro ficou conhecido pela fama mais do que pela sua leitura. E a palavra utopia passou a designar um sonho que não pode ser concretizado porque a realidade não deixa.
Ora o que distingue os comunistas dos socialistas utópicos que os antecederam de muito, é que construíram um projecto baseado na realidade e nas leis da História e não apenas na vontade legítima de humanizar o mundo. E esse projecto torna-se cada vez mais actual, à medida que as derrotas do socialismo e a desmedida hegemonia capitalista degrada a civilização.
O que distingue ainda os comunistas, hoje como sempre, é que não se vergam às dificuldades e não correm atrás das benesses do poder.


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