Perigos e resistência

Jorge Cadima

19 de Março, nas manifestações de Lisboa e Porto, vamos todos juntar a nossa voz!

Os colossais desequilíbrios da maior potência capitalista estão-se a agravar rapidamente. O défice comercial dos EUA em mercadorias e serviços foi, em 2004, de 617,7 mil milhões de dólares (Economic Policy Institute, www.epinet.org), um valor recorde. Já em Janeiro registou-se um saldo mensal negativo de 58,3 mil milhões, o segundo pior de sempre (www.census.gov/foreign-trade). Isto, apesar da desvalorização do dólar desde 2002. O maior saldo negativo é com a China, país que acaba de ultrapassar os EUA, pela primeira vez, como maior parceiro comercial do Japão (Financial Times, 26.1.05). Entretanto, o orçamento de Estado dos EUA não pára de se afundar. Em 2004 registou um défice recorde de 412 mil milhões de dólares. Para 2005 prevê-se um buraco de 427 mil milhões (Washington Post, 26.1.05). Uma das principais causas deste agravamento das contas públicas dos EUA são os custos das suas guerras, que desde o 11 de Setembro totalizam (oficialmente) 277 mil milhões de dólares: mais do que os EUA pagaram (em termos reais) na I Guerra Mundial (WP, 26.1.05). Os EUA são hoje o país mais endividado do mundo. A sua dívida pública em 10 de Março era $7.750.514.131.991 (www.publicdebt.treas.gov), mais de 1000 dólares por cada ser humano! Por outras palavras: os EUA vivem muito acima dos seus meios. Parasitam a economia mundial. A situação é insustentável. Para combater o défice comercial, os EUA terão de desvalorizar acentuadamente a sua moeda. Isso significará perdas enormes para quem a detiver. Os Bancos Centrais já começaram as vendas de dólares. Todos temem que a corrida se torne uma debandada, lançando a economia dos EUA (e do planeta) numa crise de enormes proporções. A agressividade homicida do imperialismo norte-americano passa também por aqui.

Na Europa têm-nos dito que Bush estaria mais dialogante. Mas os factos desmentem todos os dias esta visão cor-de-rosa: a recondução ou promoção dos elementos mais reaccionários no seu governo; a nomeação do fascistóide John Bolton como novo Embaixador na ONU (organização que sempre desprezou); o pedido do Ministro da Defesa Rumsfeld para retomar o programa de armas nucleares anti-abrigo - as «bunker busters» (AFP, 2.2.05); as ameaças de um ataque israelita ao Irão (Haaretz, 22.2.05) e o apoio manifestado quer pelo Vice-Presidente Cheney (Los Angeles Times, 21.1.05) quer por Bush (Daily Telegraph, 18.2.05); a tentativa de golpe no Líbano e as ameaças contra a Síria (ameaças antigas: o Parlamento americano já havia aprovado sanções contra esse país em 2003); as declarações da CIA considerando a China «uma ameaça para as forças dos EUA» na Ásia (Financial Times, 16.2.05); a inclusão, por Condoleeza Rice, na lista do «eixo do Mal» (agora re-baptizado «fortalezas da tirania») de Cuba, Bielorússia, Zimbabwe e Birmânia (BBC, 19.1.05); a multiplicação de denúncias da prática regular de torturas pelos EUA (NY Times, 18.2.05; Independent, 1.12.04; AP, 17.2.05), incluíndo contra o motorista dos jornalistas franceses raptados e libertados, Chesnot e Malbrunot (Il Manifesto, 7.1.05)! O general americano que declarou publicamente que «matar é divertido» (Herald Tribune, 5.2.05) e as tropas dos EUA que mataram o agente secreto italiano que acompanhava a jornalista raptada de volta para Roma revelam com eloquência quão velho é o «novo Bush».

Não espanta que os países que se sentem ameaçados, de uma forma ou outra, pela ofensiva hegemónica do imperialismo, estejam a começar a coordenar a sua acção. Cuba, Venezuela, Irão, China, Síria, Rússia, Índia, Brasil e outros países têm protagonizado, em particular nos últimos três meses, uma sucessão intensa de contactos bilaterais, acordos económicos (em particular energéticos) e/ou militares. A resistência vai-se, inevitavelmente, organizando. Os trabalhadores e povos têm uma palavra decisiva a dizer, a esse respeito. Este sábado, 19 de Março, nas manifestações de Lisboa e Porto, vamos todos juntar a nossa voz!


Mais artigos de: Opinião

Crises de crescimento

Passada a crise da adolescência, o BE parece agora pretender afirmar a sua condição adulta. A julgar pelas notícias, coisas como a criação de comissões políticas ou eleição de líder parlamentar parecem estar na agenda da sua próxima convenção nacional. Seguramente, tudo arreliadoras alterações que, ditadas por uma mais...

Um herói do nosso tempo

Eis o homem, Daniel Bessa de sua graça: «com créditos firmados e sólida reputação no mundo empresarial e económico», «frontal», «moderno», foi ex-ministro de Guterres (logo, homem da esquerda moderna), depois (homem da esquerda moderníssima) foi nomeado pelo PSD para não se viu bem o quê, mas há-de ter sido coisa de...

Utopias

Uma das fragilidades de muitos intelectuais portugueses - dos outros não falo por ignorância dos seus hábitos de pensar e intervir - é a de fingirem saber de tudo ou, pelo menos, esconderem debilidades culturais ou, pura e simplesmente, fazerem de conta que sabem do que falam. É assim possível que, por exemplo, Cavaco...

As tarefas dos comunistas

O resultado das eleições legislativas de 20 de Fevereiro, nos três distritos do Alentejo (Beja, Évora e Portalegre) traduziram-se na maior derrota dos partidos de direita PSD/PP dos últimos 25 anos sendo estes os únicos distritos do País onde nenhum destes partidos consegue eleger qualquer deputado.

Panaceias

Os portugueses ainda não sabem qual vai ser o programa do Governo de José Sócrates, mas a política de alianças do bloco central já começou a funcionar, numa demonstração clara de que PS e PSD estão bem mais próximos do que pretendem fazer crer, sobretudo quando o que está em jogo é o essencial e não o acessório.Vem isto...