Um herói do nosso tempo

José Casanova
Eis o homem, Daniel Bessa de sua graça: «com créditos firmados e sólida reputação no mundo empresarial e económico», «frontal», «moderno», foi ex-ministro de Guterres (logo, homem da esquerda moderna), depois (homem da esquerda moderníssima) foi nomeado pelo PSD para não se viu bem o quê, mas há-de ter sido coisa de vulto, enquanto isso, «elabora trabalhos para grupos como Sonae e Amorim», e é manchete de jornais de referência do sistema, e fala, fala, fala... - é, enfim, um herói do nosso tempo.
Veio agora, em entrevista ao Diário de Notícias, ler-nos a cartilha do tempo que vivemos – cópia fiel do paleio dos ideólogos do capital ao longo dos tempos, o velho paleio da «ordem natural das coisas» com o qual, desde há séculos, vêm justificando a inevitabilidade e as bondades da sociedade de exploradores e explorados.
Diz o homem que «economia no bom caminho vai aumentar o desemprego», ou seja: quanto mais desemprego houver, melhor será o estado da economia; quanto mais famílias viverem o drama de não terem trabalho, nem dinheiro para comer, melhor vai a economia; quanto mais jovens desesperarem à procura do primeiro emprego, melhor vai a economia; quanto mais intenso e amplo for o desrespeito por essa velharia que dá pelo nome de direito ao trabalho, mais respeitados serão os direitos, esses, sim, modernos, do grande capital; quanto mais intensa for a exploração da imensa maioria dos portugueses, maiores serão os lucros da minúscula minoria, composta pelos patrões dos grandes grupos económicos – e maiores hão-de ser, também, os salários de todos os doutores bessas, isto digo eu; quanto maiores forem as dificuldades ou a miséria de mais de nove milhões de portugueses, maiores serão as facilidades e a abastança da meia dúzia de patrões do doutor Bessa.
De barba e cabelos ao vento, espada desembainhada, alucinado, o doutor Bessa clama pelo desemprego – mais e mais desempregados, mais e mais miséria... maiores e maiores riquezas, tudo a bem da economia nacional. «Essa é a força do capitalismo» - proclama, grandíloquo, o doutor Bessa - «a coragem de romper e de destruir para criar» (numa alusão à famosa tese da «destruição criadora», parida por um tal Joseph Schumpeter, «um dos maiores economistas de todos os tempos», na opinião do doutor Bessa, é claro).
Em resumo: «se as coisas correrem bem, o desemprego aumentará». Se correrem mal... o doutor Bessa fica sem emprego.


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