Recomeçar...

Ângelo Alves

Sharm El Sheikh, mais do que um acordo, é um momento de expectativa

No passado dia 8 de Fevereiro, Mahmoud Abbas, recém eleito Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) e Ariel Sharon, Primeiro Ministro de Israel, deslocaram-se ao Egipto para participarem na cimeira de Sharm El Sheikh.
Realizada mais de 4 anos após a provocação de Sharon na Esplanada das Mesquitas em Setembro de 2000, após quatro anos de Intifada e cerca de um mês depois das eleições palestinianas em que Abbas sucedeu a Yasser Arafat no cargo de Presidente da ANP, esta cimeira teve como principal conclusão a declaração mútua de tentativa de estabelecimento de uma trégua entre Israel e a Palestina.
De fora da discussão ficaram questões tão importantes como a retirada de Israel para as fronteiras de 1967, o desmantelamento de colonatos, o regresso dos refugiados, o estatuto de Jerusalém e o desmantelamento do muro sionista, facto demonstrativo das dificuldades impostas por Israel. Mesmo na questão dos prisioneiros, e apesar da declaração de libertação de 500 (mais 400 «brevemente») dos 8000 prisioneiros palestinianos encarcerados nas prisões israelitas, permanecem por resolver questões que várias organizações palestinianas consideram fundamentais.

A cimeira de Sharm El Sheikh é assim, mais do que um acordo, um momento de expectativa. As declarações de Abbas afirmando que «Nasceu hoje uma nova oportunidade para a paz (...) prometemos protegê-la» ilustram bem o carácter frágil das conclusões e aconselham à prudência na sua análise.
Esta cimeira, sendo, em teoria, um momento que pode abrir portas para uma nova etapa na resolução da questão palestiniana não pode, contudo, ser desligada da conjuntura internacional em que se realiza, de um conjunto de processos e manobras em curso no Médio Oriente – dirigidos em primeira instância pela Administração Bush – e da história da ocupação, genocídio e terrorismo de Estado israelita, que na pessoa de Ariel Sharon tem um dos seus mais cruéis executores.
Num momento em que assistimos por parte de Israel, dos EUA e da União Europeia a uma tentativa de carregar nos ombros da Autoridade Palestiniana o ónus da paz; em que, na sequência das hipócritas leituras da morte de Arafat, se tentam introduzir factores de divisão na sociedade palestiniana; numa altura em que Israel prossegue uma tentativa de recauchutagem «democrática» da ocupação da palestina, tentando ganhar tempo e espaço de manobra junto da chamada comunidade internacional; em que a administração Bush, através da encenação com as eleições no Iraque e do seu envolvimento na preparação desta cimeira, tenta dar corpo à doutrina do «grande Médio Oriente» em que os EUA assumem o papel de «exportadores» da «democracia» ocidental para esta zona, é importante que não se perca de vista o essencial da questão palestiniana.

E o essencial foi o que os líderes políticos dos EUA e da União Europeia, entre outros, não referiram. A Palestina está ocupada há mais de meio século pela maior potência militar do Médio Oriente, apoiada pelo amigo norte-americano. Nos últimos quatro anos contam-se em mais de 4000 os palestinianos mortos às mãos do exército israelita. Israel actua na mais completa ilegalidade desrespeitando acordos e as resoluções da ONU que reconhecem os direitos palestinianos e leva a cabo uma destruição sistemática das infraestruturas da Palestina e um autêntico genocídio do seu povo. Isto é o essencial. E foi isto que foi esquecido nas análises sobre Sharm El Sheikh. É que o essencial é que não haverá paz, justa e duradoura, sem uma solução política que reconheça os direitos do povo palestiniano. É por aí que se tem que recomeçar! Caso contrário estar-se-á a dar cada vez mais espaço à táctica do «pau e da cenoura» que Israel tem prosseguido ciclicamente ao longo de décadas.


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