Campanha alegre

Anabela Fino
A campanha eleitoral começou como seria de esperar. Dando provas da profunda originalidade que os caracteriza, mais às respectivas máquinas partidárias, Santana e Sócrates rumaram a Castelo Branco com as suas hostes para declararem à cidade e ao mundo que cada um tem mais apoiantes do que o outro, que o quartel foi pequeno para tanto socialista e que o pavilhão não chegou para as encomendas social-democratas, enquanto se acusavam mutuamente de se andarem a imitar um ao outro, esgrimindo atoardas que de tão ocas não ficarão para a história a não ser como exemplo do que por um mera questão de higiene mental seria aconselhável evitar.
Os registos mediáticos não esclareceram se os 800 quilos de porco assado no espeto PPD/PSD e servidos à discrição nas ruas albicastrenses discriminaram entre apoiantes de um ou de outro partido, ou se muito democraticamente aconchegaram os estômagos sem distinções partidárias. Também não deu para perceber se os assistentes de um e de outro comício eram todos naturais da região, e sobretudo eleitores no respectivo círculo eleitoral, mas uma ou outra nota de reportagem mostrou que, ao contrário do afirmado pelos dois partidos, o arranque da campanha levou a Castelo Branco gente de vários pontos do país. Tudo muito espontâneo, naturalmente, como os líderes confirmaram e os cabeças de lista repetiram entre promessas e vivas e apelos a votos para as ansiadas maiorias.
As transmissões em directo e em diferido não esgotaram o tema, que os «candidatos a primeiro-ministro» estão outra vez na ordem do dia e tem direito a tratamento preferencial devidamente escorado no critério jornalístico, que lá por se estar em campanha eleitoral e todos terem direito a tratamento igual nem por isso uns deixam de ser mais iguais do que os outros. Vai daí que para além de ver e ouvir os comícios há que dar tempo de antena aos líderes dos dois maiores partidos para que comentem o que cada um disse como disse ou porque disse, não se vá dar o caso de alguém ter perdido as suas transcendentes mensagens e os não menos transcendentes mimos com que se brindam mutuamente.
Digna de registo neste início de campanha foi também a homilia do padre da Igreja de S. João de Brito, que aproveitou a transmissão dominical da missa na Antena 1 para pelar ao voto nos partidos que condenam o aborto, o divórcio e a eutanásia. Não consta que o cardeal patriarca de Lisboa e putativo candidato à sucessão de João Paulo II tenha achado necessário vir chamar a atenção do pároco para o excesso de zelo, pouco consonante com a isenção exigível num Estado laico. Não consta também que a rádio pública, paga com o dinheiro dos contribuintes católicos e não católicos, crentes e não crentes, tenha tomado qualquer iniciativa para garantir que o caso não se repita. Também não consta que os «partidos da maioria» tenham tomado posição sobre o caso, mais prontos a engolir a hóstia e o insulto do que a denunciar a ingerência, não vá o «diabo tecê-las» na hora do voto.
Assim vai a campanha da alternância. E ainda há quem acuse os comunistas de insistirem que para mudar a sério... só com a CDU.


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