Dupont & Dupont

Anabela Fino
Formalmente, a campanha eleitoral ainda nem sequer começou, mas desde a queda do governo da dupla Santana/Portas que o circo - sem ofensa para o propriamente dito - saiu à rua. Evitemos chamar-lhe política para não desvirtuar o termo, tão maltratado desde a própria génese, qual prematuro em incubadora que a família se dedica a massacrar, para usar uma das mais memoráveis analogias nacionais.
À falta de feras e animais exóticos sobejam neste circo os trapezistas e palhaços ricos, as fanfarras e os ilusionistas. A música de fundo é tão atroadora que poucos poderão ficar indiferentes.
A menos de um mês das eleições não serão muitos os portugueses imunes a angústias existenciais sobre o devir imediato: Vai haver ou não um duelo Santana/Sócrates? Vai haver ou não um encontro a cinco? Será que Portas atraiçoa Santana? Será que o PSD rompe com o CDS? Portas filho vai responder a Louçã pai?... Não perca os próximos capítulos da novela eleitoral!
Para ajudar à festa, os malabaristas vieram também a terreiro com os números da crise e arrotando soluções prontas a servir, as mesmas de ontem anteontem e transanteontem desde há quase três décadas e ciclicamente recauchutadas para fingir de novas. Numa espécie de jogo do «bate e foge» lança-se para a arena mediática a má sina de ser português e ala que se faz tarde, façam o favor de pôr a cabeça no cepo que a sangria vai continuar.
As performances não se ficam por aqui. Dando largas à sua veia cénica, uns apresentam figurantes de peças por escrever e outros fazem que escrevem sem pensar nos protagonistas, enquanto outros ainda se afadigam com borracha e mata-borrão para apagar vestígios de letras incómodas.
Escusado será dizer que são todos muito sérios, muito competentes, muito responsáveis, muito modernos e muito, muito credíveis. Que estão todos empenhados no progresso e no desenvolvimento, na democracia e na justiça. Que têm na manga e no bolso as soluções para colocar o País na lista dos dez mais desenvolvidos da Europa, assim os portugueses apertem o cinto e abram o voto à maioria absoluta, deste ou daquele tanto faz que sem isso Portugal não é governável.
Como se pode concluir, é tudo uma questão de forma, que quanto ao conteúdo estamos conversados. Discuta-se o acessório - o sal das campanhas - que o fundamental não está em causa. Não fossem os maçadores dos comunistas, com essa mania de falar de coisas inoportunas, e o espectáculo Dupont & Dupont seria perfeito.


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