Tortura no exército Alemão

Rui Paz

Têm surgido nos quarteis cada vez mais acontecimentos de carácter neonazi

Desde o mês de Novembro que a Alemanha está a ser abalada pela descoberta de práticas de tortura na instrução militar da Bundeswehr. No quartel de Coesfeld na Renânia do Norte e Vestefália - um estado federado governado pelo SPD - os recrutas, durante marchas nocturnas, são assaltados, amarrados com cabos eléctricos, e levados para interrogatórios com sacos enfiados na cabeça onde são submetidos a maus tratos. O aparecimento de um número cada vez maior de casos idênticos aponta para a prática generalizada da tortura no treino militar das Forças Armadas da Alemanha. Estas práticas incluem a asfixia pela introdução ininterrupta de água na gargante e choques eléctricos aplicados desta vez não pelos sargentos norte-americanos em Abu Ghraib, mas por instructores militares de uma potência da União Europeia que à semelhança dos Estados Unidos da América também se arroga a missão e o direito de «civilizar» e «democratizar» o mundo. O Ministro da Defesa, o social-democrata Peter Struck, tem procurado acalmar a opião pública invocando que tais práticas constituem casos isolados. No entanto, está ainda bem presente a divulgação de um vídeo com cenas de violação sexual e de crucifixão filmadas na escola de infantaria de Hammelburg durante a preparação militar para a intervenção militar na Bósnia.

A desumanização no seio das Forças Armadas alemãs iniciou-se imediatamente após a liquidação da República Democrática da Alemanha nos primeiros anos da década de noventa. Ainda na euforia do processo de anexacção da RDA, o então general Klaus Naumann, membro da comissão militar da NATO e inspector-geral da Bundeswehr do governo de Helmut Kohl, afirmava em Janeiro de 1993 uma entrevista a revista «Der Spiegel» que só existem «duas moedas fortes no mundo: o poder da economia e os meios militares». E referindo-se ao papel das forças armadas da Alemanha na nova correlação de forças na Europa favorável ao imperialismo, Naumann explicava dois anos depois no mesmo semanário (5/95) que «já não estamos na casa das máquinas dos navios da ONU, NATO, UE, mas na ponte de comando».
Desde então, têm surgido nos quarteis cada vez mais acontecimentos de carácter neonazi como a prática da saudação hitleriana, ataques racista a estrangeiros praticados por grupos de soldados e encontros de antigos combatentes do exército de Hitler, a Wehrmacht.
Ainda recentemente o comandante de uma unidade militar especial, destinada a execução de missões secretas e ilegais em Estados soberanos, e que neste momento actua no Afeganistão sob o comando norte-americano, foi suspenso por ter vindo a público apoiar declarações de carácter neonazi e racista proferidas por um deputado democrata-cristão pelo círculo eleitoral de Fulda no Bundestag.

Depois da descoberta de vídeos com as brutalidades cometidas nos quarteis alemães, os capelães militares católicos na sua assembleia anual realizada em Freisingen (1997), constatavam já muito antes do surgimento do imperativo militarista do actual «projecto de consitutição europeia» que a preparação da Bundeswehr para as intervenções no estrangeiro «modifica a consciência dos soldados e atrai um outro tipo de elementos com posições de direita às forças armadas». O porta-voz do bispo militar, Harald Oberhem sublinhou ainda que «soldados que dias inteiros estão submetidos a situações de combate, sentem-se como os seus avós na Wehrmacht».
Não só nos EUA mas também na UE, a nova doutrina militar imperialista está a contribuir para o sedimentar de uma consciência desrespeitadora do direito e da dignidade humana nas Forças Armadas, policias e repressivas de vários Estados. É pois necessário que todos os democratas portugueses mantenham bem alto os ideais libertadores e humanistas do 25 de Abril e do Movimento da Forças Armadas para se evitar em Portugal a regressão obscurantista e fascizante que está a atingir as instituições Militares e de Segurança de outros países.


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