Uma «causa» por água abaixo
A forma como Louçã invadiu, no debate político com Paulo Portas, a fronteira da privacidade de opções ou conduta pessoal é particularmente sintomática da contradição entre as causas que se dizem defender e as convicções, ou a falta delas, que lhes deveriam estar associadas. Apressar-se-ão alguns a dizer, certamente imbuídos de uma imensa boa vontade e não menor condescendência, que a expressão de Louçã, no calor do debate e perante o insuportável reaccionarismo da argumentação de Paulo Portas contra a despenalização do aborto, deveria ser apreciada com essa atenuante e julgada como um momento mais emocional. Só que as declarações de Teixeira Lopes, ainda mais acintosas, sobre as supostas opções de comportamento pessoal de Portas (acusando-o de «não ter uma vida coerente com os princípios que defende»), produzidas a frio muitas horas depois, dizem quase tudo sobre a coerência e tolerância que por ali mora. Nada mau para um dirigente do BE que movido pelo preconceito anticomunista que o povoa ainda há dias se havia dedicado a acusar o PCP de «partido fechado e intolerante». E, sobretudo, esclarecedor da credibilidade de quem nessa mesma ocasião se esforçou, até à exaustão, para apresentar o bloco como a «esquerda não arrogante», «atenta àquilo que é contemporâneo e ao que pode significar a renovação dos princípios da esquerda», «aberta a novas ideias e a novos projectos».
Corrida que seja a cortina das frases grandiloquentes e da auto reclamada titularidade da modernidade à esquerda, revele-se o que por detrás dela se descobre. A causa das causas do BE, a tal que é sempre apresentada como tendo sido imposta na agenda política por eles próprios, a causa da defesa da igualdade e do respeito pela diferença, esvaiu-se em segundos. É caso para se dizer que neles, nesses segundos, se foram páginas e páginas de programas do BE dedicados ao «combate ao novo moralismo reinante»; que neles se foram as exigências sempre dirigidas a outros de «coerência e principio nesta área da vida social»; neles se foram o que é apresentado como desiderato do combate «da esquerda moderna», a luta contra a homofobia. Nada mau para quem se pretende apresentar como «esquerda de confiança» Aguarda-se agora, com razão justificada, que algumas das organizações com intervenção na área da luta contra a desigualdade com base na orientação sexual, sempre tão solicitas em elogios e encómios ao papel de vanguarda dos bloquistas venham a terreiro dizer de sua justiça.
Corrida que seja a cortina das frases grandiloquentes e da auto reclamada titularidade da modernidade à esquerda, revele-se o que por detrás dela se descobre. A causa das causas do BE, a tal que é sempre apresentada como tendo sido imposta na agenda política por eles próprios, a causa da defesa da igualdade e do respeito pela diferença, esvaiu-se em segundos. É caso para se dizer que neles, nesses segundos, se foram páginas e páginas de programas do BE dedicados ao «combate ao novo moralismo reinante»; que neles se foram as exigências sempre dirigidas a outros de «coerência e principio nesta área da vida social»; neles se foram o que é apresentado como desiderato do combate «da esquerda moderna», a luta contra a homofobia. Nada mau para quem se pretende apresentar como «esquerda de confiança» Aguarda-se agora, com razão justificada, que algumas das organizações com intervenção na área da luta contra a desigualdade com base na orientação sexual, sempre tão solicitas em elogios e encómios ao papel de vanguarda dos bloquistas venham a terreiro dizer de sua justiça.