Pragmatismos
As intervenções do secretário-geral do PS, José Sócrates, estão cada vez mais enigmáticas. Esta semana, desmentindo uma notícia do Diário de Notícias segundo a qual o PS, caso ganhe as eleições, aumentaria o IVA de 19 para 20 por cento, JS foi mais uma vez indecifrável: afirmou que o PS tenciona «mexer» nos impostos, mas garantiu que não será para os subir... nem para os baixar. Segundo a edição de terça-feira do Público, semelhante pérola foi debitada à margem de uma reunião com professores, em Lisboa, onde terá exposto outra ideia brilhante, esta a propósito do ensino. De acordo com o jornal, JS considera que o problema português é mais de execução do que de concepção de programas, tendo sublinhado que «nada dispensa [que haja] bons ministros» para levar as ideias à prática.
Elementar... ou não?
Deve ser por estas e por outras - há já quem diga que sempre que Sócrates abre a boca o PS perde votos - que na mesma edição do Público o constitucionalista Vital Moreira dedica a sua habitual colaboração a explicar aos leitores os motivos que tornam necessária uma maioria absoluta do PS para assegurar a «estabilidade política e governativa» no País.
Ao contrário do que sucede noutros países, diz VM, uma coligação à esquerda está fora de causa em Portugal, quer seja do PS com o PCP ou com o BE.
No caso do PCP, explica o doutor de Coimbra, «provavelmente aumentou em vez de diminuir o fosso que o separa do PS, já porque aquele não dá mostras de atenuar o seu dogmatismo “marxista-leninista”, já porque o PS acentuou a sua abertura ao centro, tornando-se um alvo ainda maior da condenação comunista». O problema, parece, reside no facto de o PCP se dizer «sempre disponível para a criação de uma “maioria de esquerda”, mas sob condição de adopção de políticas que ele mesmo considere de esquerda, o que quer dizer as suas próprias políticas».
No caso do BE, para abreviar, é porque os seus dirigentes assumiram «uma postura oposicionista».
Para reforçar a sua tese, VM aponta ainda mais dois problemas de monta: a necessidade de uma política orçamental restritiva e a ratificação da Constituição Europeia.
Não vá dar-se o caso de Sócrates ainda não ter percebido, VM afirma preto no branco que «impõe-se desde logo um orçamento rectificativo para cortar despesa e porventura realizar receitas adicionais», que traduzindo significa nada de aumentos e mais impostos para quem já paga a factura da crise, coisa que - heresia - o PCP combate.
Quanto à Constituição Europeia - veja-se o despautério! - o PCP não se mostra disposto a seguir o exemplo do CDS que, «muito pragmaticamente, foi capaz de pôr debaixo do tapete o seu eurocepticismo, em prol da coligação com o PSD» (e de umas pastas no governo, dizemos nós).
No seu longo artigo, VM não se detém sobre as políticas do PS nem sobre as suas consequências para o povo e para o País, tal como não despende uma linha sobre a necessidade de cedências e entendimentos, pressuposto de qualquer coligação. Parece que o caminho para Portugal é de via única, e ou vai tudo a reboque do PS, dizendo “amém” à «abertura ao centro», ou então não se queixem os cidadãos, que se não derem a maioria absoluta ao PS «não poderão depois exigir-lhe o impossível».
Sócrates tem motivos para agradecer, mas não carecia tanta linha para VM dizer, muito pragmaticamente, que desistiu de transformar a sociedade e que lhe basta agora o socialismo na gaveta.
Elementar... ou não?
Deve ser por estas e por outras - há já quem diga que sempre que Sócrates abre a boca o PS perde votos - que na mesma edição do Público o constitucionalista Vital Moreira dedica a sua habitual colaboração a explicar aos leitores os motivos que tornam necessária uma maioria absoluta do PS para assegurar a «estabilidade política e governativa» no País.
Ao contrário do que sucede noutros países, diz VM, uma coligação à esquerda está fora de causa em Portugal, quer seja do PS com o PCP ou com o BE.
No caso do PCP, explica o doutor de Coimbra, «provavelmente aumentou em vez de diminuir o fosso que o separa do PS, já porque aquele não dá mostras de atenuar o seu dogmatismo “marxista-leninista”, já porque o PS acentuou a sua abertura ao centro, tornando-se um alvo ainda maior da condenação comunista». O problema, parece, reside no facto de o PCP se dizer «sempre disponível para a criação de uma “maioria de esquerda”, mas sob condição de adopção de políticas que ele mesmo considere de esquerda, o que quer dizer as suas próprias políticas».
No caso do BE, para abreviar, é porque os seus dirigentes assumiram «uma postura oposicionista».
Para reforçar a sua tese, VM aponta ainda mais dois problemas de monta: a necessidade de uma política orçamental restritiva e a ratificação da Constituição Europeia.
Não vá dar-se o caso de Sócrates ainda não ter percebido, VM afirma preto no branco que «impõe-se desde logo um orçamento rectificativo para cortar despesa e porventura realizar receitas adicionais», que traduzindo significa nada de aumentos e mais impostos para quem já paga a factura da crise, coisa que - heresia - o PCP combate.
Quanto à Constituição Europeia - veja-se o despautério! - o PCP não se mostra disposto a seguir o exemplo do CDS que, «muito pragmaticamente, foi capaz de pôr debaixo do tapete o seu eurocepticismo, em prol da coligação com o PSD» (e de umas pastas no governo, dizemos nós).
No seu longo artigo, VM não se detém sobre as políticas do PS nem sobre as suas consequências para o povo e para o País, tal como não despende uma linha sobre a necessidade de cedências e entendimentos, pressuposto de qualquer coligação. Parece que o caminho para Portugal é de via única, e ou vai tudo a reboque do PS, dizendo “amém” à «abertura ao centro», ou então não se queixem os cidadãos, que se não derem a maioria absoluta ao PS «não poderão depois exigir-lhe o impossível».
Sócrates tem motivos para agradecer, mas não carecia tanta linha para VM dizer, muito pragmaticamente, que desistiu de transformar a sociedade e que lhe basta agora o socialismo na gaveta.