Duas Catástrofes
A resistência do povo iraquiano está a prestar um enorme serviço à Humanidade.
O final de 2004 fica marcado por duas catástrofes de grandes dimensões. Uma catástrofe natural: o violento terramoto seguido de vagas gigantes que, em poucas horas, ceifaram a vida a 150 mil pessoas. Outra catástrofe criada por alguns homens: uma guerra de ocupação que já provocou, segundo a estimativa da revista médica The Lancet, a morte de 100 mil civis iraquianos.
A primeira reacção dos governantes dos EUA à tragédia do Oceano Índico foi de silêncio. Sempre presentes nos nossos ecrãs, desta vez demoraram alguns dias a aparecer. Quando o fizeram, foi para oferecer 15 milhões de dólares de auxílio. Numa pouco vulgar reacção, o coordenador das operações de auxílio humanitário da ONU, Jan Egeland, declarou que a reacção das nações ricas do Ocidente à tragédia era uma «forretice». Picados, os governantes dos EUA subiram a verba para 35 milhões. Mas numerosos outros países, com economias bem menores, estavam já a oferecer quantias muito mais vultosas. Perante o escândalo, quase uma semana após a tragédia, os EUA anunciaram que disponibilizariam 350 milhões de dólares. O anúncio teve destaque na comunicação social. Mas comparem-se os números das duas tragédias.
Segundo o New York Times (30.12.04), só os custos militares das operações dos EUA no Iraque e Afeganistão «totalizam mais de 5 mil milhões de dólares por mês». O Christian Science Monitor (30.9.04) estimava que, o conjunto dos custos dos (então) 18 meses de guerra e ocupação do Iraque totalizava 175 mil milhões de dólares. Ou seja, incluíndo também os custos não directamente militares, chegava-se a cerca de 10 mil milhões de dólares por mês. Este último valor significa que os 350 milhões de dólares agora prometidos pelo governo dos EUA para auxiliar os milhões de desalojados da catástrofe do Oceano Índico equivalem àquilo que os EUA gasta num dia para provocar a catástrofe no Iraque. Os 15 milhões de dólares inicialmente oferecidos pelos EUA não chegam ao custo de um único avião de combate F-16 (The Times of India, 28.12.04). O custo de um avião de combate F-22 Raptor ascende a 225 milhões de dólares (Counterpunch, 29.12.04), ou seja, quase dois terços do montante global agora prometido pelos dirigentes norte-americanos às vítimas duma enorme tragédia humana. Os números ilustram bem a obscenidade criminosa dos governantes da maior potência «democrático-ocidental».
E eis o dia-a-dia do tsunami norte-americano que se abateu sobre o Iraque, segundo o The Economist (01.01.05): «Em Ramadi [...] os Marines estão nervosos. Por vezes, disparam sobre veículos que se aproximam até 30 metros [...]. E nem todas as vítimas estão em carros. Desde que descobriram que as bombas à beira da estrada [...] também podem ser activadas por telemóveis, os Marines dizem-nos que disparam sobre qualquer iraquiano que vejam a manusear um telefone na vizinhança de uma explosão. Os transeuntes no momento duma emboscada dos insurectos também se arriscam a ser mortos. Os Marines dizem-nos que por vezes se escondem perto do cadáver dum insurrecto morto e matam quem quer que venha recolher o corpo. Como afirma um tenente dos Marines: “chegamos ao ponto de não poder esperar para ver os tipos com as armas, e portanto começamos a disparar contra toda a gente... Chega-se ao ponto de já não nos importarmos com aquilo que de mal fazemos” ». É para isto que a maior potência imperialista do planeta tem dinheiro.
Mas comecemos 2005 com palavras de esperança. William Pfaff (International Herald Tribune, 29.12.04) escreve: «O Vietname destruiu o exército de cidadãos da América [...] Mas não se deve abusar nem de um exército profissional. Também ele se pode revoltar. [...] O Iraque está agora a destruir o exército profissional que os EUA recrutou para substituir o seu exército de cidadãos». No meio da catástrofe que se abateu sobre o seu país, a resistência do povo iraquiano está a prestar um enorme serviço à Humanidade.
A primeira reacção dos governantes dos EUA à tragédia do Oceano Índico foi de silêncio. Sempre presentes nos nossos ecrãs, desta vez demoraram alguns dias a aparecer. Quando o fizeram, foi para oferecer 15 milhões de dólares de auxílio. Numa pouco vulgar reacção, o coordenador das operações de auxílio humanitário da ONU, Jan Egeland, declarou que a reacção das nações ricas do Ocidente à tragédia era uma «forretice». Picados, os governantes dos EUA subiram a verba para 35 milhões. Mas numerosos outros países, com economias bem menores, estavam já a oferecer quantias muito mais vultosas. Perante o escândalo, quase uma semana após a tragédia, os EUA anunciaram que disponibilizariam 350 milhões de dólares. O anúncio teve destaque na comunicação social. Mas comparem-se os números das duas tragédias.
Segundo o New York Times (30.12.04), só os custos militares das operações dos EUA no Iraque e Afeganistão «totalizam mais de 5 mil milhões de dólares por mês». O Christian Science Monitor (30.9.04) estimava que, o conjunto dos custos dos (então) 18 meses de guerra e ocupação do Iraque totalizava 175 mil milhões de dólares. Ou seja, incluíndo também os custos não directamente militares, chegava-se a cerca de 10 mil milhões de dólares por mês. Este último valor significa que os 350 milhões de dólares agora prometidos pelo governo dos EUA para auxiliar os milhões de desalojados da catástrofe do Oceano Índico equivalem àquilo que os EUA gasta num dia para provocar a catástrofe no Iraque. Os 15 milhões de dólares inicialmente oferecidos pelos EUA não chegam ao custo de um único avião de combate F-16 (The Times of India, 28.12.04). O custo de um avião de combate F-22 Raptor ascende a 225 milhões de dólares (Counterpunch, 29.12.04), ou seja, quase dois terços do montante global agora prometido pelos dirigentes norte-americanos às vítimas duma enorme tragédia humana. Os números ilustram bem a obscenidade criminosa dos governantes da maior potência «democrático-ocidental».
E eis o dia-a-dia do tsunami norte-americano que se abateu sobre o Iraque, segundo o The Economist (01.01.05): «Em Ramadi [...] os Marines estão nervosos. Por vezes, disparam sobre veículos que se aproximam até 30 metros [...]. E nem todas as vítimas estão em carros. Desde que descobriram que as bombas à beira da estrada [...] também podem ser activadas por telemóveis, os Marines dizem-nos que disparam sobre qualquer iraquiano que vejam a manusear um telefone na vizinhança de uma explosão. Os transeuntes no momento duma emboscada dos insurectos também se arriscam a ser mortos. Os Marines dizem-nos que por vezes se escondem perto do cadáver dum insurrecto morto e matam quem quer que venha recolher o corpo. Como afirma um tenente dos Marines: “chegamos ao ponto de não poder esperar para ver os tipos com as armas, e portanto começamos a disparar contra toda a gente... Chega-se ao ponto de já não nos importarmos com aquilo que de mal fazemos” ». É para isto que a maior potência imperialista do planeta tem dinheiro.
Mas comecemos 2005 com palavras de esperança. William Pfaff (International Herald Tribune, 29.12.04) escreve: «O Vietname destruiu o exército de cidadãos da América [...] Mas não se deve abusar nem de um exército profissional. Também ele se pode revoltar. [...] O Iraque está agora a destruir o exército profissional que os EUA recrutou para substituir o seu exército de cidadãos». No meio da catástrofe que se abateu sobre o seu país, a resistência do povo iraquiano está a prestar um enorme serviço à Humanidade.