A grande questão

Albano Nunes (Membro da Comissão Política do PCP)
A situação do país é realmente muito grave. Os problemas são estruturais e profundos e envolvem praticamente todas as esferas da vida nacional. É necessário atacá-los com a maior urgência sob pena de se abrir uma crise de dimensão ainda mais vasta e perigosa. Mas como? Com que critérios de classe? Com que protagonistas no plano das forças sociais e das alianças políticas?

O compromisso do PCP é com os trabalhadores e o povo português

Esta é a grande questão que está colocada na ordem do dia com as eleições de 20 de Fevereiro. Elas oferecem uma oportunidade, que seria grave desperdiçar, para inverter o desastroso rumo do País, para derrotar não apenas a direita mas as políticas de direita conduzidas em conjunto ou em alternância formal pelo PS,PSD e CDS/PP ao longo de 28 anos de poder, para abrir um processo de ruptura com políticas que, independentemente de caras, ritmos e matizes, representam os interesses do grande capital e a submissão – económica, política, cultural, diplomática e militar – ao imperialismo.
É por isso necessário prestar uma grande atenção à catadupa de sentenças, pretensamente «técnicas», «desideologisadas» e «supra-partidárias», que invocam a grave situação do País, nomeadamente económica e financeira, precisamente para impedir o desenvolvimento de dinâmicas de ruptura com as orientações de classe dominantes e para assegurar o prosseguimento de políticas ancoradas na globalização capitalista que, arruinando o povo e o país, garantem o florescimento dos grupos económicos e da clientela que os sustenta, o esbulho de bens e serviços públicos, a continuada alienação das alavancas da nossa economia e dos instrumentos da nossa soberania. Por detrás deste coro – que como sempre se veste de roupagens «nacionais» e «patrióticas» mas não diz uma palavra contra as políticas de sistemática e acrítica sujeição de Portugal às imposições da UE e do imperialismo em geral – é o bloco central de interesses que tem desgovernado o país que se perfila. Não é casual que PS e PSD tenham respondido com tanta solicitude ao apelo de fim de Ano do PR, apelo de que o PCP prontamente se demarcou.

Voto realmente útil é na CDU

E prestar uma atenção tanto maior quanto, fieis à sua própria natureza, os apelos à «austeridade», a «reformas estruturais», a «pactos de regime», a «contratos sociais» e mesmo a «governos de salvação nacional» apontam sempre na mesma direcção: contra os trabalhadores e o regime democrático. Tendo reconquistado o poder económico, o grande capital aspira ao exercício do poder político por inteiro, sem peias nem entraves de ordem constitucional e legal, aproveitando a boleia das tendências negativas que estão em marcha por essa Europa fora com expressão particularmente visível na Alemanha.
A posição do PCP é muito clara. O seu compromisso é com os trabalhadores e o povo português, com a mobilização das suas energias e capacidades criadoras, com a sua luta e aspirações libertadoras. Todo e qualquer compromisso político suscitado pela grave situação do País, tem de fazer-se em torno da solução dos mais graves e urgentes problemas dos trabalhadores e do povo (do ataque ao flagelo do desemprego ao regresso da força da GNR do Iraque), em torno de uma mais justa repartição do rendimento, em torno de uma afirmação corajosa de soberania nacional que, em aliança combativa com outros povos e países, afronte corajosamente as ruinosas dinâmicas e as inaceitáveis consequências da nova ordem imperialista.
É por isso que o voto realmente útil em 20 de Fevereiro será aquele que reforce eleitoralmente a CDU. Será aquele que, ampliando o seu Grupo Parlamentar, assegure ao PCP maior peso nas soluções político-institucionais. Será aquele que, dando mais força aos comunistas, contribua por isso mesmo para dar mais força ao movimento operário e à luta popular, social e política, que não só terá de prosseguir após as eleições legislativas, como é desejável que se intensifique sejam quais forem os seus resultados. Sem isso, sem que a classe operária, os trabalhadores e as diferentes classes e camadas do povo português afirmem os direitos e aspirações que lhes são próprios, não será possível imprimir à sociedade portuguesa a nova dinâmica que ela tão insistentemente reclama. É também por isso que faz todo o sentido o grande esforço que está a ser feito pelo colectivo partidário para conjugar as urgentes tarefas de apresentação de listas e intervenção eleitoral com as tarefas de reforço do Partido indicadas pelo XVII Congresso. Depois de 20 de Fevereiro a luta continua.
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«Aos camaradas que me estão a ouvir eu peço que retenham na memória o que vou dizer. Se por nossa desgraça tivermos um governo só de socialistas, sem os comunistas, eu já vou dizer o que é que eles vão fazer. Não precisamos que eles nos anunciem. Se formarem governo sem os comunistas vão congelar salários. Vão dificultar a contratação colectiva de trabalho. Vão aumentar os preços. Vão agravar as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores. Vão dar maiores lucros aos capitalistas. Vão restituir terras aos agrários. Vão restituir fábricas aos capitalistas que as sabotaram, que as conduziram à falência e que os trabalhadores conseguiram manter. Esta vai ser a política, se ficar um governo só de socialistas, sem comunistas.» (Álvaro Cunhal, num comício na Companhia das Lezírias em 20 de Junho de 1976, antes da formação do 1.º governo constitucional, do PS, chefiado por Mário Soares. Formado um mês depois, esse governo aliou-se, de facto, à direita).


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