O passeio

Henrique Custódio
A «reunião do Conselho de Ministros» realizada há dias no navio-escola Sagres deixou o País atónito, pois obviamente ninguém percebeu o que podia o Governo da Nação decidir de especial numa saleta apertada (inevitável em qualquer veleiro), onde - como se viu na propaganda que passou na televisão disfarçada de notícia – os ministros se acotovelavam manifestamente constrangidos apesar de muito sorridentes, todos apenas com direito a uma nesga de mesa decorada com um copo de água e um bloco de apontamentos, enquanto à cabeceira o Primeiro-Ministro Santana Lopes sorria para a posteridade, evidente capitão-mor daquela ideia genial de levar o Executivo, de cambulhada, para um barco felizmente ancorado no Estuário do Tejo, não fosse a ondulação tecê-las e desatasse a pôr a ministerial comitiva a gritar pelo Gregório.
É claro que o Executivo não decidiu nada que se visse ou justificasse a iniciativa e nem para isso fora organizado o entremez marítimo.
A essência da coisa estava nos blusões e bonés expressamente encomendados para os ilustres visitantes que, assim fardados em uniforme de alta-costura, ficaram prontos para o desfile que se pretendia: o que mostrava, a esta pátria de navegadores, um garboso Executivo todo vestido de marinheiro-de-água-doce.
Mas esta originalidade do Governo de Santana Lopes em reunir fora de portas – que é como quem diz, longe das instalações do Conselho de Ministros – está também longe de ser uma bizarria.
É mesmo um facto e uma constante, tal a insistência e a regularidade com que foi sendo realizada ao longo dos pouco mais de três meses que este Governo leva de exercício.
Veja-se.
Logo a 30 de Julho, mal tomara posse, Santana Lopes resolveu que o seu terceiro Conselho de Ministros tinha de arejar os dourados, pelo que rumou ao Porto e, no luxo do Palácio do Freixo, reuniu imenso.
Exactamente um mês depois, a 30 de Setembro, lá marcharam de novo todos, agora para Coimbra, onde conferenciaram no Pavilhão Centro de Portugal e tiveram o percalço de andar a fugir de manifestações de trabalhadores recém-desempregados por encerramentos selvagens de empresas, contrariedade notoriamente imprevista a que a polícia pôs fácil termo barrando o passo aos incómodos visitantes – referimo-nos aos visitantes trabalhadores, não aos visitantes governantes, evidentemente.
Depois veio Novembro e, a 11 desse mês, ala para Bragança, onde a deslocação dos senhores ministros decorreu com total tranquilidade e sem manifestações desagradáveis, pois a segurança governamental não dorme e, obviamente, aprende com os percalços.
Finalmente veio a «Sagres», o navio-escola há dias transformado em gabinete de reuniões governamentais, o que dá a impressionante média de mais de uma reunião por mês do Conselho de Ministros, em quatro possíveis, fora do seu local de trabalho próprio e adequado.
Nada se sabe do que foi decidido nestas reuniões ambulantes porque, obviamente, nada de substantivo nelas foi realizado, para além da exibição do Governo em trânsito.
Tal como não se tem nenhuma ideia do esbanjamento que paga cada uma destas exibições em transportes, instalações, alojamentos, deslocações de serviços, pessoas e equipamentos e etc. etc., tudo não se sabe para quê.
O que se sabe, por evidência, é que esta gente anda a gozar o País.
E a gozá-lo em passeio.


Mais artigos de: Opinião

As taxas de Santana

Recentemente Santana Lopes veio anunciar a diferenciação das taxas moderadoras nos serviços públicos de saúde, corrigindo passado pouco tempo para o pagamento diferenciado dos cuidados de saúde por determinadas camadas da população.

A guerra e a mentira permanentes

O segundo canal da TV alemã (ZDF) acaba de revelar nos noticiários de 18 e 20 de Novembro que os massacres contra a população sérvia, desencadeados no Kosovo, em Março deste ano, e que provocaram 19 mortos e 1000 feridos, foram organizados por «Samedin Xhezairi», colaborador dos serviços secretos alemães (BND) com...

Factos e «coincidências»

Nestes dias, os aparelhos mediáticos, as suas cúpulas e superestruturas de poder têm vivido a vertigem de novos factos e suas «coincidências».Facto um, - em ordenação não cronológica – a demissão forçada, a semana passada, da Direcção de Informação da RTP, que se segue aos «casos» Marcelo e D.Notícias, comprovam que o...

A insustentável clareza da coisa

Para tranquilidade de umas quantas inquietas consciências a pergunta para o referendo sobre o novo tratado está aprovada. Notável esforço, diga-se, só possível por tão coesa e desprendida coligação de interesses que PS e PSD representam em matéria de políticas de integração, para dar à luz tão engenhosa pergunta. A...

Um dó de sinfonia

Santana Lopes afirmou anteontem em entrevista à RTP que a central de comunicação do Governo, após ter sido vetada pelo Presidente da República, é um «assunto encerrado». Manifestamente pouco interessado em abrir um qualquer conflito institucional com Jorge Sampaio, o primeiro-ministro dedicou 40 minutos a tentar...