A guerra e a mentira permanentes

Rui Paz

A agressão contra a Jugoslávia abriu as portas à guerra e à mentira permamentes

O segundo canal da TV alemã (ZDF) acaba de revelar nos noticiários de 18 e 20 de Novembro que os massacres contra a população sérvia, desencadeados no Kosovo, em Março deste ano, e que provocaram 19 mortos e 1000 feridos, foram organizados por «Samedin Xhezairi», colaborador dos serviços secretos alemães (BND) com ligações aos Talibans e à Al’ Qaeda. Desde há meses, que têm vindo a intensificar-se na Alemanha as críticas ao comportamento da Bundeswehr face à limpeza étnica sistematicamente prosseguida pelos aliados da NATO naquela província sérvia. Durante os massacres de Março, o contigente da Bundeswehr ali estacionado recolheu misteriosamente aos quarteis, enquanto as aldeias sérvias, as igrejas e conventos ortodoxos eram consumidos pelas chamas. Segundo a versão da NATO e do Governo de Berlim, as tropas alemãs teriam sido surpreendidas pelos acontecimentos. Mas as revelações da ZDF apontam para mais uma situação de incitamento dos conflitos étnicos e religiosos nos Balcãs, praticado há anos pelas potências ocidentais, em primeiro lugar pela Alemanha, e à sombra do qual o imperialismo tem vindo a concretizar a liquidação da Jugoslávia.

Neste contexto nunca é demais recordar o escândalo que constitui a farsa do julgamento do antigo presidente Milosevic, raptado e encarcerado pela NATO no chamado «tribunal» de Haia. Sobretudo agora que o «líder do mundo livre» George Bush e a sua Administração massacram impunemente o povo iraquiano, mesmo depois de terem reconhecido que os motivos invocados para desencadear a agressão contra o Iraque se basearam numa série de mentiras.
Assim como no Iraque não existiam as alegadas armas de destruição maciça nem as ligações de Bagdad à Al’ Qaeda, também no Kosovo não se verificava nenhuma situação de «catástrofe humanitária» quando a NATO decidiu agredir a Jugoslávia. Como está hoje provado, nomeadamente pelo general alemão Heinz Loquai, chefe da missão da OSCE no Kosovo, a NATO sabia não existir naquela região sérvia qualquer situação de catástrofe ou de crise humanitária.

Este facto não impediu que a esmagadora maioria dos chefes-de-estado e de governo socialistas e social-democratas da Europa, a começar pelo Presidente da República Jorge Sampaio e o então Primeiro-Ministro António Guterres, aderisse ao vendaval de mentiras, fabricado no Ministério da Defesa em Berlim pelo então Presidente do Partido Socialista Europeu, Rudolf Scharping. O célebre programa da WDR «tudo começou com uma mentira» (8.2.01) desmascarou perante milhões de espactadores as invenções da existência de um «campo de concentração» no estádio de Pristina, do chamado “plano ferradura“ com que Belgrado estaria a preparar a limpeza étnica do Kosovo, ou ainda as fotografias falsificadas do alegado «massacre de Rugova».

O então porta-voz da NATO em Bruxelas, Jamie Shea considerou que
«Scharping fez verdadeiramente um bom trabalho», salientando que «se tivessemos perdido a opinião pública na Alemanha, te-la-íamos perdido em toda a Aliança». Shea justificou o bombardeamento criminoso da Televisão de Belgrado nos seguintes termos: «muitos jornalistas diziam: Milosevic apresenta as imagens e Jamie Shea só tem palavras. Em quem é que devemos acreditar? Nas palavras ou nas imagens?».
A agressão contra a Jugoslávia abriu as portas à guerra e à mentira permamentes, entregando os povos à voragem e aos tentáculos de um polvo opressor e militarista que tantos sacríficios e horrores está a provocar. Só a luta persistente pela independência e soberania nacionais, pela paz e contra a exploração capitalista permitirá pôr fim ao terrível pesadelo em que hoje vive a humanidade.


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