Gato escondido...

José Casanova (Membro da Comissão Política do CC do PCP)
A recente «Conferência Internacional» organizada em Praga sob o lema «Pela democracia em Cuba», sob as directrizes do governo dos Estados Unidos da América e com a participação de uma dezena de antigos governantes de vários países, constitui o ponto de partida para mais uma provocação contra Cuba e o povo cubano.

Cuba é uma espinha cravada na garganta do império, um exemplo

O facto de Praga ser o aparente berço desta provocação e de Vaclav Havel aparecer como o seu aparente promotor faz da referida «conferência» uma espécie de gato escondido com o rabo de fora. Na realidade, como a experiência vem mostrando, a República Checa e o seu ex-presidente têm-se notabilizado como dos mais fiéis serviçais dos interesses do imperialismo norte-americano – em todas as áreas e, particularmente, no que respeita a Cuba. Por outro lado, o formato desta «conferência» contém todos os ingredientes utilizados pelos EUA em cozinhados deste tipo: arrebanha-se um grupo de «personalidades internacionais», cuja característica comum é a de terem sido e serem, enquanto governantes, rasteiros lacaios dos EUA, enquanto ex-governantes, papagaios encartados do discurso imperialista, e dá-se-lhes a palavra; a turba canora procede, então, ao jogralesco espectáculo e, em coro síncrono, declama sobre a «liberdade», a «democracia» e os «direitos humanos»; a palração é difundida para todo o mundo pelos média propriedade dos donos do mundo – e está feita a parte visível da provocação. A parte não visível a olho nu, desenrolar-se-á algures e constará, neste caso, da entrega aos «dissidentes cubanos», ou a quem os «represente», dos meios (e dos dólares) necessários para que a provocação se materialize.
Cuba é, há quarenta e cinco anos, uma espinha cravada na garganta do imperialismo norte-americano, um exemplo que o Império não suporta e que, com o recurso a todos os meios, tem tentado sufocar e esmagar. Sem êxito, graças à coragem, à determinação, à capacidade resistente do povo de Cuba. A «opressão» a que, segundo a propaganda do Império, o povo cubano estaria sujeito – e que deveria funcionar como base de apoio às múltiplas tentativas de derrubamento do regime – tem funcionado exactamente ao contrário: o povo cubano é o heróico artífice da resistência e a ele se deve o facto de o seu país permanecer livre das garras imperiais.

Liberdade e «erros»

«Encontrei em Cuba uma situação de abertura e liberdade que não encontrara em nenhum outro país da zona»: disse o cineasta Oliver Stone, em entrevista recente – e acrescentou: «Tenho estado com muitos lideres mundiais, no Panamá, El Salvador, Nicarágua, e nunca vi um carinho espontâneo na rua como vi em Cuba, com Fidel». «Esses passeios e banhos de massas não lhe pareciam montados?»: pergunta o entrevistador, e Stone responde: «Eram totalmente espontâneos. Visitei hospitais e talvez aí pudessem ter sabido com antecedência da nossa visita, mas olhando para os rostos daquelas pessoas vê-se que nada daquilo é fingido. Sou director de actores e sei quando se está ou não a fingir. Castro perguntava-me por onde queria que fôssemos e as pessoas, de forma natural, aproximavam-se dele. Em que país do mundo se passaria isto?». A resposta vem de Praga: lá se juntou um mediático bando de democratas made in USA, todos com invejável currículo, todos assumindo o encargo de levar por diante a tarefa de «promover a democracia em Cuba». Para além de Havel, estavam presentes muitos seus gémeos, entre eles Aznar e Madeleine Albright, ambos responsáveis e co-responsáveis pelo assassinato de centenas de milhares de pessoas.
A simples enunciação, por esta gente, do encargo assumido - «promover a democracia em Cuba» –bastaria para que milhões de cubanos multiplicassem os esforços e os cuidados no sentido de evitar as consequências de tal «promoção», nomeadamente os clássicos atentados terroristas. Acresce que o suposto promotor da «conferência», afirmou, a dada altura, ter «a certeza de que a situação (em Cuba) vai mudar muito rapidamente» - e tal afirmação obriga o povo cubano e redobradas atenções... São bem conhecidos os efeitos da intensa «promoção da democracia» levada a cabo pelos EUA no mundo e, de forma muito especial, na América Latina, onde não há um só país que não tenha sofrido os seus efeitos, traduzidos na implantação de criminosas ditaduras. E é igualmente conhecido o papel desempenhado pelos mercenários arregimentados para essas cruzadas terroristas.
«Se há um conselho que eu vos posso dar, é que se concentrem naquilo que acontecerá depois da ditadura. Só assim evitarão os erros que nós não conseguimos evitar» - disse Havel, dirigindo-se aos «dissidentes». Não explicou a que erros se referia: se aos que conduziram a República Checa à sombria situação actual, ao capitalismo selvagem reinante, ao país transformado numa placa giratória de tráfico de prostituição infantil e no maior centro europeu de provocações contra Cuba – se aos erros relacionados com o facto de, poucos meses depois da ter conquistado o poder, ter passado a ser, apenas, um dos homens mais ricos do país – e não o homem mais rico do país.


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