O espectro de Beslan

Luís Carapinha

«O cinismo das “preocupações democráticas” ocidentais não tem limites»

Na Rússia, a recente vaga terrorista veio de novo lembrar que a espiral desestabilizadora não só prossegue activa, como em escalada. A monstruosidade de Beslan é o corolário de mais um ciclo de terror, elevando ainda mais os limites da barbárie num país onde a violência extrema se tornou quase uma banalidade nos últimos anos.
Esta realidade não pode ser entendida sem a consideração da natureza do capitalismo russo e do processo da sua restauração, resultante do «capitulacionismo» que levou à desagregação da URSS.
A conversão capitalista operou-se sob os desígnios das grandes potências imperialistas, com a dinâmica de subalternização a ser transplantada para os Estados «emergentes», cortando à nascença as condições de uma efectiva soberania. A Rússia, apesar da sua grandeza euro-asiática, não constituiu excepção.

A rápida acumulação capitalista assumiu um carácter eminentemente criminoso. O submundo do crime, desde o momento - ainda durante a perestroika - em que a concepção leninista de «cooperação» é «recuperada» de forma totalmente pervertida, até ao saque privatizador com Iéltsin, constituiu a mola impulsionadora que forjou a actual sistema dominante da oligarquia, em que se acolita a influente «quinta coluna».
Nesta base, dois factores interligados afiguram-se determinantes na evolução da situação actual: o agravamento do vasto feixe de insanáveis contradições internas do poder capitalista na Rússia e, por outro lado, a estratégia imperialista de enfraquecimento da Rússia, que não esconde, na acepção de figuras como Brzezinski, o objectivo supremo de retalhar a multinacional Federação Russa, sem prejuízo de outros cenários intermédios equacionados nos círculos imperialistas.

O cinismo das «preocupações democráticas» ocidentais não tem limites. Estas nada têm a ver com «democracia», mas antes com a visão utilitária da gestão dos seus interesses (do grande capital dominante). Os seus media denotam visíveis «dificuldades» em apelidar de «terroristas» os responsáveis da carnificina em Beslan mas estão sempre prontos em prestar «solidariedade» à Rússia, «vítima do terrorismo internacional». Bush não deixou de aproveitar a tragédia de Beslan para fins eleitorais. Enquanto no Iraque e Palestina se sucedem com uma cadência diária os actos da principal e mais infame das formas de terrorismo – o terrorismo de Estado –, o presidente norte-americano reafirma o «lugar comum», da parceria «ombro a ombro» entre EUA e Rússia no combate ao terrorismo. Mais relevante é o facto do imperialismo promover a expansão da NATO, apoiar regimes títeres no Cáucaso como o de Saakashvili na Geórgia e manter um relacionamento nebuloso com o separatismo tchetcheno. Convém não esquecer que Bassaiev, o conhecido líder terrorista tchetcheno que terá reivindicado a acção em Beslan, é um veterano dos campos dos mujihadeen no Afeganistão, um fruto da não muito distante cooperação terrorista entre os EUA-Arábia Saudita-Paquistão.
Como refere a agência chinesa Xinhua (19.09.04), a política de dois pesos e duas medidas dos EUA deve-se ao facto de o «problema tchetcheno ajudar a Administração americana no enfraquecimento da Rússia».

O «enigma» em torno do presidente Pútin é a expressão de todo o impasse e ambivalência que pautam os antagonismos e conflitos, internos e externos, que perpassam o regime e a sociedade russas. As causas profundas da decadência do país não poderão ser combatidas com paliativos de índole «neoczarista» ou outra qualquer e muito menos sem a genuína participação popular.
A situação com que se deparam as forças revolucionárias e progressistas russas, ainda em fase de arrumação, aponta para a necessidade absoluta do trabalho de mobilização das massas para a luta.
Sem isso, o «espectro de Beslan», como marco do capitalismo russo, permanecerá.


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