Percebe-se

José Casanova
Como se previa, o tratamento dado pelos semanários à Festa do Avante! não passou de uma melancólica repetição do que lhe fora dado pelos diários: a mesma menorização da Festa, as mesmas manipulações, as mesmas deturpações, ou seja, os mesmos critérios desinformativos e o mesmo desrespeito pela verdade e pelos leitores, tudo meticulosamente cozinhado com os silenciamentos da praxe – ao fim e ao cabo, os silenciamentos necessários para darem credibilidade às patranhas difundidas.
Retoma-se aqui este tema sem quaisquer ilusões quanto a eventuais reflexos positivos nas habituais práticas desinformativas dos média dominantes. Pelo contrário: no ponto a que as coisas chegaram, o mais provável é que a denúncia das práticas reinantes, desencadeie mais e maiores raivas e vinganças e a consequente acentuação e intensificação dessas práticas. Paciência...
Já o dissemos e agora o repetimos: no que respeita à vida, à actividade e às opiniões do PCP, a liberdade de desinformar é, hoje, o traço dominante na generalidade dos média. Se dúvidas houvesse, as reportagens sobre a Festa do Avante! dissipá-las-iam liminarmente.
Percebe-se que os supra referidos diários e semanários, não queiram ver o significado de dezenas de milhares de pessoas assistirem a um espectáculo como o da abertura da Festa («Danças para uma guitarra»: Carlos Paredes e a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, com coreografia de Vasco Wallencamp; «Três décadas de liberdade, três compositores, três pianistas»: Mozart, Bach e Haendel, António Rosado, Pedro Burmester e Mário Laginha - e a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pierce de Azevedo), ao mesmo tempo que outras dezenas de milhares assistiam e participavam em centenas de outras manifestações culturais, políticas, desportivas, conviviais. Percebe-se, igualmente, que procedam da mesma forma em relação ao segundo e ao terceiro dias da Festa. Percebe-se, ainda, que, quem já decidiu e decretou o declínio do PCP-partido de velhos, não possa ver o significado político-partidário da Festa nem a força crescente da sua componente juvenil e fuja a quatro pés da notícia da adesão à JCP, durante a Festa, de 200 novos militantes.
Percebe-se tudo isso. Por isso se percebe que todos esses jornais, sabedores de que com vinagre não se apanham moscas, insistam em auto-denominar-se independentes, plurais, isentos e imparciais.


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