Dicionário

Vitor Dias
Na mesma edição (9/9) em que publicava três páginas de texto e fotos de inexcedível deslumbramento sobre a história, o percurso e os protagonistas do Bloco de Esquerda (foi você que pediu uma peça de «jornalismo oficioso»?), a revista Visão dedicava umas míseras linhas à Festa do «Avante!» especialmente centradas sobre o relevantíssimo assunto de um «au­tên­tico des­file de ca­mi­solas alu­sivas à União So­vié­tica».
Deixando de lado a observação de que já vem de longe a atenção e carinho da Visão e de outros pelas t-shirts que se vêem na Festa (nem sabem se já trazidas de casa ou se compradas em espaços comerciais), só queremos chamar a atenção para que há muitas maneiras de olhar e ainda mais de ver.
A tal ponto que, apesar de notoriamente míope, o autor destas linhas jura, pela sua parte, que o que viu foi um «autêntico desfile» de T-shirts alusivas a muitíssimas outras coisas e temas, visão que entretanto já não interessaria à Visão pois assim já não poderia escolher o inocente e isento título de «Avante, nos­talgia! ».
Mas, mais importante do que perder tempo com «cli­chés» e truques que cheiram a arsénico e rendas velhas, talvez seja reparar que, na sua edição (de 2/9) que precedeu a realização da Festa, a Visão, no seu caderno «Sete» (agenda de eventos), até dedicou uma página inteira a aspectos centrais da programação da Festa do «Avante!» sob o apelativo e simpático título «du­rante três dias, as­sista a uma das mai­ores ini­ci­a­tivas cul­tu­rais do país».
Temos assim que a Visão reduziu a sua cobertura do que chamou uma das maiores iniciativas culturais do país a umas piadas preconceituosas e superficiais sobre T-shirts.
E temos também assim que a Visão, antes da Festa começar, achou importante chamar a atenção dos seus leitores para os espectáculos, para o Avanteatro, para a homenagem a Carlos Paredes e para as exposições centrais, ou seja para tudo aquilo a que a própria Visão não veio a ligar peva quando se tratou de relatar a Festa já realizada, sendo que da sua componente directamente política já nem se fala.
Mais coisa menos coisa, há muito tempo que, quanto ao PCP, é assim a Visão.
E como neste domínio não mudam nada, não há razões para ser o acima-assinado a esforçar-se com inovações.
E por isso, bem podemos terminar esta crónica repetindo o que já aqui escrevemos há dez anos : é que basta consultar qualquer dicionário para se ficar a saber que «visão», além de poder significar «acto ou efeito de ver; as­pecto» também pode significar «imagem vã, que se julga ver em so­nhos, ou por medo, por lou­cura, por su­pers­tição, etc. ; fan­tasia».


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