Medalhas

Gustavo Carneiro
Duas semanas depois de ter sido ateada, apagou-se, no domingo, a chama no moderníssimo Estado Olímpico de Atenas. Para trás, ficam duas semanas marcadas por fantásticos exemplos de esforço e de superação pessoal, por belos momentos que ficarão gravados na memória de milhões de amantes do desporto. Imagens da alegria de quem vence uma prova e observa, orgulhoso e emocionado, a sua bandeira subir ao poste mais alto; do brio de quem se supera a si próprio, alheio a pódios e rankings; da satisfação por ver o esforço de anos coroado com a presença na mais importante competição desportiva do mundo…
Ingenuidade? Talvez. Afinal, há o doping (o que se descobre e o outro), arbitragens e juízos escandalosos favorecendo um atleta ou selecção, há a pressão das marcas patrocinadoras sobre desportistas e organização, há os profissionais pagos a peso de ouro. Pois há. Mas também há o desporto com dê maiúsculo, o verdadeiro. Falemos dele.
Deixando de lado os grandes colossos – EUA, China, Rússia – que dominaram os Jogos Olímpicos de Atenas, tomemos o exemplo da prestação de dois pequenos países, de semelhante dimensão e população. Um está no coração do mundo desenvolvido, é membro da União Europeia e foi, durante séculos, dono de um vasto e rico império. O outro situa-se na América Latina e foi colónia ao longo de quase quinhentos anos. O primeiro recebe anualmente milhões da UE para financiar vários programas e projectos, alguns dos quais ligados ao desporto. O segundo é, há mais de quarenta anos, vítima de um embargo económico brutal por parte do mais poderoso país do mundo, que lhe condiciona o desenvolvimento, e conta quase exclusivamente consigo próprio. O primeiro país averbou três medalhas nos Jogos de Atenas, e ficou na 61.ª posição. O segundo ganhou 27 medalhas (nove de ouro), ficou em 11.º lugar e foi – de longe, muito longe – o primeiro país do chamado «Terceiro Mundo», tendo ficado também à frente de muitos grandes países ricos e desenvolvidos.
Não, não me troquei nas contas. O país «desenvolvido» ficou atrás – a léguas – do outro, o «terceiromundista». Ou talvez não. Se calhar são estes conceitos a estarem trocados. Portugal, o tal da Europa civilizada, construiu dez estádios novos para receber o Campeonato Europeu de Futebol, mas faltam pavilhões em grande parte das escolas do país. Os grandes clubes de futebol, transformados em empresas privadas, abandonaram a formação e as chamadas «modalidades amadoras» e recebem avultados subsídios públicos, enquanto que as colectividades e clubes de bairro ou de aldeia – responsáveis pela ida da maioria dos atletas aos Jogos Olímpicos – não têm, grande parte das vezes, condições mínimas de treino.
Daí que não surpreenda que Portugal tenha sofrido durante anos daquele sintoma «terceiromundista» (agora um pouco menos visível, graças à medalha ganha por Francis Obikwelu nos 100 metros) de apresentar atletas de alto nível fundamentalmente em provas cuja preparação necessita de pouco investimento, dependendo quase exclusivamente dos próprios, como as corridas de meio-fundo e fundo (onde o essencial do treino é… correr).
Em Cuba (o tal país que ficou em 11.º), por outro lado, não há grandes estádios e o desporto não dá milhões a ganhar a ninguém. Mas a sua prática é estimulada desde a infância e universal para toda a população. E como quantidade traz qualidade, a uma geração de campeões segue-se outra e mais outra. Veja-se o boxe, o voleibol, o atletismo, o judo ou o beisebol, onde Cuba se destaca olimpíadas atrás de olimpíadas. Daí não admirar que, só em Atenas, a ilha tenha averbado mais medalhas do que Portugal em toda a história dos Jogos.
A questão é só esta: promova-se o desporto, criem-se as condições, que anda para aí muito campeão perdido nas ruas deste país.


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