A Farsa

Jorge Cadima

“Os maiores terroristas do planeta neste ano de 2004 nomearam um terrorista”...

Com grande destaque na comunicação social, mas sem qualquer pompa e circunstância, os ocupantes do Iraque fizeram de contas que «transferiram a soberania do Iraque para os iraquianos». A cerimónia oficial foi clandestina: alguns homens fechados numa pequena sala, sem público, sem transmissão em directo, com 2 dias de antecedência sobre o que fora anunciado. Porque não controlam o país e não confiam no povo. Até nas formalidades, a dita «transferência» foi uma farsa.

Mas a farsa não está sobretudo na forma. Porque é que o Iraque não era (e não é) soberano? Porque a maior potência imperialista do planeta desencadeou uma guerra de ocupação ilegal daquele país. Os homens a quem agora «entregam a soberania» foram todos escolhidos a dedo pelas forças de ocupação imperialistas, e não pelo povo iraquiano. Os jornais dos EUA proclamam alegremente que o novo «Primeiro Ministro» do Iraque, Iyad Allawi, «foi recrutado para a CIA em 1992» (New York Times, 8.6.04). «Dirigiu uma organização [...] que enviou agentes para Bagdade no início dos anos 90 para colocar bombas e sabotar instalações governamentais, sob a direcção da CIA [...]. Na altura o governo iraquiano alegou que as bombas, uma das quais explodiu num cinema, tinham provocado mortes civis. [...] Um ex-agente da CIA [...] recorda-se que, nesse período, uma bomba “fez ir pelos ares um autocarro escolar; crianças em idade escolar foram mortas”». Em nome da “luta contra o terrorismo”, os maiores terroristas do planeta neste ano de 2004 nomearam um terrorista para ser a cabeça visível da sua estrutura de ocupação no Iraque.

O que vai agora ser feito, oficialmente «por decisão soberana de iraquianos» é não só tristemente previsível, mas foi dito, com a desfaçatez que caracteriza este imperialismo cada vez mais putrefacto, no despacho noticioso da BBC das 23h36m do próprio dia 28.6.04: «Horas após a transferência do poder pelos EUA no Iraque, os EUA e o Reino Unido comprometeram-se a apoiar o governo iraquiano e matar os militantes responsáveis por muita da violência». Assim mesmo, «matar» (http://news.bbc.co.uk/go/pr/fr/-/1/hi/world/middle_east/3847607.stm). Para dirigir esta guerra ainda mais suja, em que se adivinham esquadrões da morte, mais atentados terroristas indiscriminados (para virar a população contra a Resistência legítima), e mais torturas e mortes de presos (agora «soberanamente iraquianos»), os EUA enviaram como seu «Embaixador» um homem com provas dadas neste campo: John Negroponte, ex-embaixador dos EUA nas Honduras, quando esse país serviu de base para a guerra suja dos «contras» nicaraguenses. Vai agora chefiar a «maior embaixada do mundo» (BBC, 28.6.04): a missão de «representação diplomática» dos EUA no «Iraque soberano» vai ter quase 3000 funcionários…

É evidente que será essa «Embaixada dos EUA» o verdadeiro centro de poder no «Iraque soberano». Mais de 150 000 soldados dos EUA continuarão a ocupar o Iraque. E, como titula o Washington Post (27.6.04) «as normas aprovadas pelos EUA [antes da “transferência” – NT] limitam o poder dos dirigentes iraquianos». Nunca fiando, entre “gente respeitável”.


Mais artigos de: Opinião

Despedir as «modernices»

Um Acordão do Tribunal da Relação de Lisboa, relativo a recursos de decisões da primeira instância no «caso Moderna», rejeitou as provas de gestão danosa, absolveu cinco arguidos e reduziu a pena a outros dois. Apenas J.B.Gonçalves vai continuar a cumprir metade da pena de sete anos e meio de prisão, agora aplicada,...

Piloto automático

Lembrei-me há dias, quando as parangonas se enchiam de «esperanças» na nomeação de Barroso para presidente da Comissão Europeia, que o próprio não-candidato, depois de uma viagem a Bruxelas, se queixava publicamente da falta de liderança na União Europeia. Dizia ele que era como num avião em pleno voo, onde se sentassem...

Sábado, dia 26

Numa altura em que no tempo – dia e meio – que vai desde que se escreve até que os leitores leiam muita coisa pode acontecer, apenas um comentário só aparentemente à margem do essencial.De facto, não podemos deixar de registar que, na passada segunda-feira, o director do «Público», num contexto de óbvia farpa dirigida ao...

Bem bom

Portugal redescobriu a sua vocação histórica. Já não se trata de dar novos mundos ao mundo, hoje uma aldeia global sob a batuta do soba americano, mas de garantir que seja lá onde for não há-de faltar o engenho e a arte da massa cinzenta nacional.Por razões óbvias, a União Europeia é o destino privilegiado, e por ela...

Responder às novas exigências

O nosso Partido acaba de sair de uma batalha política muito importante que foram as eleições para o Parlamento Europeu. Eleições que travámos fazendo frente a imensas dificuldades, nomeadamente a sistemática campanha da comunicação social em geral, desvalorizando, deturpando, ocultando a nossa intervenção, massacrando com a difusão de sucessivas sondagens de opinião que apresentavam a CDU em claro declínio e como indo perder um deputado, com o objectivo primeiro de limitar, abalar e dificultar o alargamento da nossa influência, tudo isto em manifesto contraste com a supervalorização que faziam da campanha de outras forças políticas e em particular da campanha do BE.