Sábado, dia 26

Vitor Dias
Numa altura em que no tempo – dia e meio – que vai desde que se escreve até que os leitores leiam muita coisa pode acontecer, apenas um comentário só aparentemente à margem do essencial.
De facto, não podemos deixar de registar que, na passada segunda-feira, o director do «Público», num contexto de óbvia farpa dirigida ao PSD, depois de salientar que «em de­mo­cracia há re­gras le­gais e cons­ti­tu­ci­o­nais e re­gras de de­coro», veio afirmar que «as tais re­gras de de­coro po­lí­tico im­plicam que numa de­mo­cracia os as­suntos não são tra­tados como numa mo­nar­quia, isto é, que não há her­deiros de­sig­nados».
Acontece porém que, embora não fosse essa a intenção de José Manuel Fernandes, a afirmação assenta também como uma luva na manchete do «Público» de sábado, dia 26, que rezava nem mais nem menos que «Durão avança para Bru­xelas e ofe­rece Go­verno a San­tana». Acrescente-se entretanto que, naquele mesmo dia, a falta de decoro atingiu igualmente a manchete do «Correio da Manhã» que proclamava «Durão dá Go­verno a San­tana», do «Diário de Notícias» que gritava «Durão en­trega Go­verna a San­tana para li­derar Eu­ropa» e do «Ex­presso» que ga­rantia que «San­tana subs­titui Durão».
A coisa foi de tal modo indecorosa que, como é sabido, o Presidente da República sentiu a necessidade de pôr alguns pontos nos is e dar um vigoroso raspanete aos que, com tais títulos e maneiras de dizer, o fizeram passar ou por uma inexistência política ou por um mero tabelião de decisões alheias.
Diga-se entretanto que, só por si, nenhum raspanete presidencial fará os autores de tais títulos aprenderem alguma coisa e terem emenda em casos futuros.
Há mesmo uma eventual decisão presidencial sobre a crise política e governativa que os fará dizer que, pois pois, o que é certo é que acertaram em cheio ainda a procissão ia no adro, se é que não terão mesmo a insolência de retorquir que o protesto do Presidente foi apenas uma tentativa de tapar o sol com uma peneira.
E só mesmo outra e antagónica decisão presidencial, com a vantagem de corresponder a notórios imperativos de transparência, efectiva estabilidade e real respeito pelos cidadãos, é que faria os autores de tais títulos descobrirem que as coisas não são como julgaram ou como o PSD interesseiramente soprou para os «media».


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