kosovo, limpeza étnica

Rui Paz

As estruturas do crime organizado têm alastrado rapidamente

A existência do chamado «plano ferradura» e a encenação do «massacre de Racak» inventados pelo então ministro da Defesa da Alemanha Scharping, acusando o governo do antigo Presidente Milosevic de preparar a limpeza étnica do Kosovo, foram um elemento fundamental da propaganda belicista com que a NATO em 1999 tentou esconder os verdadeiros objectivos da agressão contra a Jugoslávia. Mas a realidade tem vindo a demonstrar que a invasão militar do Kosovo pelas forças militares da «Aliança Atlântica» tem contribuído para a intensificação da violência e limpeza étnica naquela província sérvia. Sob a protecção das tropas de ocupação, em particular nas regiões controladas pelo exército alemão, já foram expulsos, segundo dados da Cruz Vermelha Internacional, mais de 250 mil sérvios, 100 mil ciganos e milhares de membros de outras etnias. Hoje, em Pristina, restam apenas 150 sérvios dos 40 mil que habitavam a cidade antes dos bombardeamentos da NATO. As vítimas dos ataques racistas e da perseguição religiosa contam-se aos milhares. Um número incalculável de habitações e localidades sérvias, 117 mosteiros e igrejas ortodoxas foram incendiados e destruídos. O único jornal diário e programa de rádio sérvios foram encerrados. Este é um drama real que supera as mentiras da «catástrofe humanitária» com que Clinton, Blair, Schroder e os seus acólitos europeus ludibriaram o mundo para justificar a agressão.

Aliás, a deputada trabalhista no Parlamento Britânico, Alice Mahon, alertara já em Agosto de 2000 que «sob a protecção da NATO e utilizando o terror» se estava a criar no Kosovo «um estado etnicamente puro». Simultaneamente, como constata o Instituto de Sociologia Económica e Ecológica de Munique (in: «a ordem mundial bélica e a violência económica» ISW, 06.04) «as estruturas do crime organizado têm alastrado rapidamente porque sempre estiveram intimamente ligados aos aliados paramilitares da NATO, os quais após a invasão se transformaram nos principais actores políticos do Kosovo». Segundo a UNICEF das 120 mil mulheres e crianças anualmente vendidas aos países da União Europeia para alimentar o negócio da prostituição, uma parte muito significativa passa pelo Kosovo e outros estados balcânicos. E o relatório daquela instituição das Nações Unidas esclarece que a presença de milhares de funcionários das organizações internacionais nos Balcãs contribui decisivamente para a expansão da prostituição.
A política de liquidação e fragmentação da Jugoslávia sistematicamente prosseguida pela Alemanha com o objectivo de submeter e dominar os Balcãs conseguiu paralizar as trocas económicas entre as várias repúblicas da Jugoslávia e destas com o Leste, e assegurar a Berlim o monopólio do comércio externo com os Estados da região.

A transformação definitiva do Kosovo numa colónia alemã em violação flagrante da resolução 1244 da ONU, a exemplo do Montenegro, onde o euro sucedeu ao marco alemão como moeda oficial, é apenas uma questão de tempo. O grupo parlamentar dos Liberais no Bundestag assim como o deputado europeu democrata-cristão Doris Pack exigem a oficialização do Kosovo como protectorado da União Europeia enquanto que os generais americanos apontam para a integração daquele território da Sérvia na NATO.
Formalmente os Estados imperialistas só ocupam o Kosovo, mas, de facto, dominam também a Sérvia e o Montenegro. Na sombra mexem os cordelinhos, impõem a chantagem do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, o poder dos EUA, da União Europeia, da NATO, dos bancos e dos monopólios das potências ocidentais e do chamado «tribunal internacional» de Haia.


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