O troféu

Henrique Custódio
A novidade foi dada pela Time.
Segundo esta revista norte-americana, o Presidente dos EUA, George W. Bush, mandou guardar junto da Sala Oval, na Casa Branca, a pistola com que Saddam Hussein foi encontrado na altura da sua prisão, por forças militares norte-americanas.
Agora, o Presidente da superpotência mundial que hegemoniza o mundo entretém-se, vibrando entusiasmo, a mostrar pessoalmente às suas visitas mais ilustres, uma pistola.
A pistola de Saddam. A mesma que este trazia – que excitação! – na altura em que foi capturado. «Com um por­menor», explicará W. Bush, afadigado, puxando a culatra atrás, manobrando aplicadamente o engenho e escancarando-o às visitas, que recuarão irreprimivelmente assustadas. «Es­tava des­car­re­gada», sorrirá amplamente o anfitrião, com a mesma galhardia com que envergou uma farda de piloto para aterrar num porta-aviões, a cumprir algo tardiamente, por breves minutos e perante as câmaras de televisão, um serviço militar de que por acaso fugira na idade própria, quando a família lho trocou por uma confortável comissão na Guarda Nacional, algures no interior dos EUA, enquanto os jovens norte-americanos da época iam morrendo lá no longínquo Vietname.
Levar para a Casa Branca uma pistola e exibi-la como um troféu diz tudo sobre o poder que actualmente se instalou nos EUA e a figura que o simboliza. A inacreditável graçola lançada por W. Bush contra Bin Laden - apontando-o como alvo de um «Procura-se vivo ou morto», como nos filmes de cow­boys – ameaça tornar-se em política oficial. Já imaginaram os chefes de Estado em geral a imitar W. Bush e a transformar os palácios presidenciais em museus para exibir despojos de inimigos pessoais?!...
Entretanto, não duvidem: se o deixarem, W. Bush ainda ordena que pendurem a própria cabeça de Saddam numa parede da Sala Oval. A criatura já demonstrou, à saciedade, que nada do que faz ou pensa tem conta ou medida.
Talvez por isso, o caos no Iraque também já não tem conta ou medida. Os atentados contra as tropas ocupantes rebentam em todo o território e dão forma a uma autêntica guerra de guerrilha, os militares «aliados» (que é como quem diz os norte-americanos e os britânicos) vivem não apenas encurralados nos seus aquartelamentos e zonas de segurança, mas manifestamente apavorados, disparando contra tudo e contra todos à mínima perturbação (como mais uma vez se viu com o massacre de um casamento por tropas norte-americanas, onde assassinaram mais de 40 pessoas, incluindo mulheres e crianças) e, por isso, mobilizando a generalidade dos iraquianos para a resistência, sejam eles sunitas, xiitas ou curdos, todos olhando os ocupantes com indisfarçável hostilidade e desconfiança.
É neste ambiente extremamente volátil e perigoso que a administração de W. Bush pretende instituir um «governo de iraquianos» nomeado já no final deste mês, para o que anda em afanosas reuniões para escolher quem o irá integrar. É claro que mesmo esta escolha está a tropeçar com a inevitável sobranceria e prepotência dos responsáveis norte-americanos, que querem impor os «seus homens» - em geral iraquianos que sempre viveram no exílio, sob tutela dos EUA e não têm qualquer aceitação por parte dos cidadãos do Iraque -, ao mesmo tempo que acusam os actuais membros do Conselho do Governo Iraquiano (CGI), que querem ser reconduzidos, de apenas pretenderem «conservar os seus postos». É claro que, mais uma vez, a ONU está a ser completamente marginalizada nesta nova «escolha» dos EUA.
Todavia, como a administração Bush em breve verificará, a invenção de um «governo amigo» no Iraque não é tão simples como pendurar uma pistola na Casa Branca...


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