Bush e os outros
“O imperialismo é a expressão do capital financeiro e dos monopólios que traz consigo em toda a parte a tendência para a dominação e não para a liberdade”.
Lénine em O imperialismo, fase superior do capitalismo
Afirmava alguém esta semana, em versão não muito distinta do que muitos outros agora decidiram passar a afirmar, que Bush constituiria uma catástrofe que aconteceu aos Estados Unidos e ao mundo. Seja por razão das evidências recentes da brutalidade americana no Iraque, seja pela verificação do atoleiro em que se traduziu a invasão daquele país, a inquietação reina entre apoiantes e admiradores confessos da política da nação americana. Percebe-se porquê. Aquela imagem laboriosamente construída pela propaganda dominante de uma América pretensamente sede da democracia, pátria da liberdade e defensora dos direitos humanos revela-se agora crua e esplendorosamente desnudada na sua natureza mais própria e característica : arbitrária, totalitária, opressora e desumana. Registe-se o incómodo de alguns e as esforçadas tentativas de alguns para iludir que o essencial da questão não está em malformações de carácter mas na natureza do sistema. A verdadeira catástrofe que o mundo enfrenta não está na pessoa de Bush, por mais execrável, mesquinha e ridícula que se a considere, mas sim no domínio imperialista de que o país a que preside, enquanto expressão não única mas maior, é principal executor. A verdadeira catástrofe para o mundo e para os povos, incluindo para o próprio povo americano, não reside em erros de condução da política mas sim na raíz económica de um sistema capitalista que na sua fase contemporânea mais não pode oferecer, sem se negar a si própria, que as relações de dominação e a violência ligada a essa dominação. A pilhagem neocolonial e o garrotar de povos e países pelo uso da divida externa, as agressões ou a promoção de golpes de Estado em países terceiros, o criminoso bloqueio a Cuba ou a invasão de Granada, a agressão á Jugoslávia ou ao Afeganistão, o fomento de organizações terroristas ou a formação de torcionários, o bombardeamento maciço seja na agora chamada versão cirúrgica ou no uso da bomba atómica não são atitudes ou decisões exclusivas deste ou daquele presidente, de democratas ou republicanos. São expressão da natureza e dos objectivos de um sistema que precisa da guerra, da violência e da dominação para sobreviver e se desenvolver. A luta consequente por um mundo mais justo e pacífico é indissociável de uma avivada consciência das responsabilidades do capitalismo e da indispensável inscrição, na agenda dos trabalhadores e dos povos, do combate pela sua liquidação e pelo objectivo da construção do socialismo.