Tropismo e deriva securitária

Carlos Gonçalves
Em matéria de vezo autoritário na segurança interna o Governo e os partidos que o sustentam têm uma história bem reaccionária. Mas nunca estiveram tão arrogantes para fazer regredir os direitos, liberdades e garantias, manietar os profissionais das Forças de Segurança, manipular o aparelho repressivo do Estado contra a luta social e as forças mais progressistas e usar os Serviços de Informações na perversão do regime e na ofensiva imperialista de «recolonização global».
O desvario securitário foi ao êxtase no Congresso do PSD, com D.Barroso a acusar o PCP de responsável pela eventual insegurança no Euro 2004, uma ameaça - liminarmente rechaçada - e uma manobra reles de passa culpas por eventuais problemas, frutos da inépcia do Governo e do seu alinhamento na guerra USA de rapina e ocupação.
O Governo, que escamoteia cumplicidades na política que alimenta o terror, cada vez que o xerife Bush toca a campaínha do «terrorismo» arreganha os dentes - parece o cão do Pavlov - e, num tropismo securitário, avança novo passo na deriva autoritária, na policialização, na espionagem e na cassação de liberdades.
Ainda há uma semana, alguns dos seus «ideólogos da comunidade de informações» e outros da área do PS – Dias Loureiro, Daniel Sanches, Rui Pereira, Severiano Teixeira - num «seminário» muito mediatizado peroraram sobre a «reforma das secretas», para concluir que «a fraqueza do nosso sistema não tem paralelo noutros Estados da UE» e defender a «fusão dos serviços», o «agente infiltrado» e as «escutas preventivas».
Da apologética desta «causa» cito Inês Serra Lopes, no Independente, «é melhor legalizar as escutas do que permitir ... que estas continuem a ser realizadas de modo ilegal», e Chito Rodrigues, «não é possível criar um serviço de informações com cedências político-partidárias», ou seja, legalizem-se as escutas criminosas e isente-se a espionagem do controlo democrático da AR. Tudo claro.
E o PS, corresponsável por não funcionar, ou nem existir de facto, anos a fio, e agora há uns poucos meses, qualquer fiscalização dos serviços, e de que – ao que consta - já aprovou a «reforma», nada tem a dizer sobre a matéria? Nem sobre estas escutas, no exacto momento em que propõe limitar as de investigação criminal? E a mais ninguém importa o «regular funcionamento das instituições», inscrito na Constituição?
E não é verdade, também na deriva securitária, que «quem cala consente»?


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