Ajustes

Henrique Custódio
Segundo o Expresso, o Governo pagou 870 mil euros (quase um milhão, ou seja, à volta de 200 mil contos...) pela campanha publicitária das comemorações do 25 de Abril – a tal que inventou o fantástico classificatório «Evolução» para a Revolução de Abril -, mas não realizou concurso público porque se tratava de «uma situação de urgência».
Ainda segundo o semanário de Pinto Balsemão – sempre bem apetrechado, nestas cartadas informativas para pesar nos círculos do poder –, o gabinete do ministro da Presidência, Morais Sarmento, justifica a decisão invocando a alínea c) do artigo 86 do decreto-lei 197/99, que estipula as regras para as aquisições na Administração Pública.
Acontece que, segundo essas regras, só é permitido o recurso ao ajuste directo «na medida do estritamente necessário e por motivos de urgência imperiosa resultante de acontecimentos imprevisíveis».
Claro como água.
Ora, segundo o gabinete de Morais Sarmento (nestas contas, já o ministro não avança, intrépido, para as câmaras – manda o gabinete...), a «situação de urgência» deveu-se ao facto de «a decisão de afectar a verba para a realização das actividades comemorativas só ter sido tomada em Março de 2004», ou seja, um mês antes de essas actividades ocorrerem.
Extraordinário, seja qual for o ângulo por que olhemos tais declarações.
Estando este Governo em funções há mais de dois anos, como é que só decidiu afectar verbas para as comemorações do 30.º aniversário da Revolução de Abril um mês antes da data prevista? Era um «acontecimento imprevisível»? Há dois anos - sequer, mesmo, há um ano não fazia ideia que o aniversário ia acontecer um ano depois? Porquê decidir em cima da hora as comemorações de um trigésimo aniversário? Seria por um irreprimível desprezo pela Revolução de Abril (o que explicaria, em parte, a palhaçada da alcunha «Evolução»)? S+eria, linearmente, por uma monumental incompetência? Ou será que se tratou de ambas as coisas, atacando à uma e fechando o negócio de atracão com os amigos ali do lado?
Por outro lado, no que toca à «urgência», como é admissível que um Governo que se gaba de moralizar as despesas públicas admita, sequer, que as comemorações de um 30.º aniversário (trigésimo, sublinhemos bem) possa transformar-se numa «urgência» em termos de planificação, abrindo caminho ao expediente do ajuste directo - que, obviamente, onera exponencialmente as despesas e lança na mais denso nevoeiro qualquer presunção de comparar os gastos?
A nada disto responde o ministro Morais Sarmento ou, sequer, o seu diligente gabinete.
De concreto, fica a saber-se apenas que o País e os contribuintes pagaram cerca de 200 mil contos à agência de publicidade MKT, presidida por um senhor chamado Rui Trigo, para, sob encomenda directa do ministro Morais Sarmento e na ocasião do 30.º aniversário, chamar à Revolução de Abril uma «Evolução».
Quem, de certeza, «evoluiu» com o negócio foi a tal empresa MKT – um milhão de euros de receita dá para evoluir bastante.
Quem, certamente, «evoluiu» também seja lá o que for, terá sido o ministro Sarmento e o Governo – se não, rigorosamente nada justificará a invenção de tal «urgência».
Quem, por último e de certeza absoluta, nada evoluiu com isto foi a Fazenda pública, a gestão do Estado e a credibilidade do actual Governo.
Todos, por ajuste directo, se afundaram mais no descrédito.


Mais artigos de: Opinião

É preciso escolher!

Sim, é preciso escolher o campo de luta. É necessário que cada um assuma com clareza as suas responsabilidades e decida em que lado da barricada se situa. Há momentos da História que obrigam a escolhas a que ninguém se pode furtar. Muito menos uma força política. Momentos em que os «eu não sabia» ou «isso não me diz...

Critérios, pois claro

Já toda a gente ouviu certamente falar de «critérios jornalísticos», mas para quem não saiba sempre se avança que, nos tempos que correm, é assim uma espécie de saco sem fundo onde cabe tudo e não entra nada.A culpa não é do conceito, de resto muito respeitável, mas do mau uso que dele fazem os que, defendendo muito os...

Congresso do PSD – palpites

Nestes dias, são tantas as antecipações do XXV Congresso do PSD do próximo fim de semana, que me lembrei que tal qual as «Profecias» do Bandarra - sustento da luta popular pela independência em 1640 – algumas se hão-de fazer realidade. E assim se juntam uns poucos palpites.Este vai ser um Congresso de paleio, muita...

Três semanas

Se fazemos bem as contas, a partir de hoje faltam exactamente três semanas e dois dias para 13 de Junho, dia (ao que parece, ainda pouco conhecido) de votação nas eleições para o Parlamento Europeu.Restam-nos portanto três semanas para levar muito mais longe a persistente e diversificada acção de esclarecimento em que o...

Em nome da família: <br>mistificar e mistificar!

A 15 de Maio assinalou-se o Dia Mundial da Família, ano em que se comemora o 10º aniversário do Ano Internacional da Família. Portugal confronta-se com uma maioria e um governo de direita que, como nenhum outro depois do 25 de Abril, se assume como porta-voz de concepções conservadoras e obscurantistas, sendo...