Critérios, pois claro
Já toda a gente ouviu certamente falar de «critérios jornalísticos», mas para quem não saiba sempre se avança que, nos tempos que correm, é assim uma espécie de saco sem fundo onde cabe tudo e não entra nada.
A culpa não é do conceito, de resto muito respeitável, mas do mau uso que dele fazem os que, defendendo muito os princípios, praticam pouco.
Exemplos não faltam. Na última semana, por exemplo, a Índia - mais de mil milhões de habitantes - viveu um terramoto eleitoral que alterou radicalmente o panorama político do país e deitou por terra todos os prognósticos dos comentadores nacionais e internacionais.
Todos acreditavam no sucesso do Partido Janata, no poder, a começar pelo primeiro-ministro, Vajpayee, que aos 79 anos deitou contas à vida e decidiu antecipar as eleições em cinco meses. Para slogan da campanha escolheu a frase «Índia Brilhante», o que muito terá agradado à direita que representa e ao poder económico-financeiro que engordou à sombra das políticas neoliberais do governo.
Estavam todos descansados à espera da vitória quando o caso se deu: o voto dos indianos derrubou o governo de direita de forma tão esmagadora que, seis horas depois da abertura das urnas, Vajpayee apresentava a demissão.
A imprensa deu a notícia, obviamente, bem como a vitória do Partido do Congresso, o partido dos Gandhi agora liderado por Sonia Gandhi, a italiana que casou com o filho de Indira Gandhi e que foi, tal como ela, assassinado.
Até aqui nada de especial. O problema é que as notícias passaram como cão por vinha vindimada - ou como gato sobre brasas - sobre os resultados das restantes forças políticas, designadamente os da Frente de Esquerda, integrada - surpresa! - pelo Partido Comunista da Índia (Marxista) e pelo Partido Comunista da Índia. Não se trata de um pormenor. Sem o seu apoio não haverá governo e com ele a política terá de mudar. O poder financeiro percebeu e entrou em pânico, e um analista do banco americano JP Morgan teme mesmo o crescimento da «despesa com o desenvolvimento rural, assim como as preocupações fiscais», e prevê que as «privatizações devem diminuir».
Pouco preocupados com a situação da população camponesa (60% do total), paupérrima, ou com os 250 milhões de indianos abaixo do nível de pobreza, os analistas e comentadores optaram por ignorar que a Frente de Esquerda passou de 36 para 60 deputados; que em Bengala Ocidental, há 27 anos governado pelos comunistas, a Frente elegeu 35 dos 42 deputados; ou que em Kerala a esquerda elegeu 18 dos 20 deputados, só para citar alguns exemplos.
Longe de nós pensar que se trata de discriminação. São critérios.
A culpa não é do conceito, de resto muito respeitável, mas do mau uso que dele fazem os que, defendendo muito os princípios, praticam pouco.
Exemplos não faltam. Na última semana, por exemplo, a Índia - mais de mil milhões de habitantes - viveu um terramoto eleitoral que alterou radicalmente o panorama político do país e deitou por terra todos os prognósticos dos comentadores nacionais e internacionais.
Todos acreditavam no sucesso do Partido Janata, no poder, a começar pelo primeiro-ministro, Vajpayee, que aos 79 anos deitou contas à vida e decidiu antecipar as eleições em cinco meses. Para slogan da campanha escolheu a frase «Índia Brilhante», o que muito terá agradado à direita que representa e ao poder económico-financeiro que engordou à sombra das políticas neoliberais do governo.
Estavam todos descansados à espera da vitória quando o caso se deu: o voto dos indianos derrubou o governo de direita de forma tão esmagadora que, seis horas depois da abertura das urnas, Vajpayee apresentava a demissão.
A imprensa deu a notícia, obviamente, bem como a vitória do Partido do Congresso, o partido dos Gandhi agora liderado por Sonia Gandhi, a italiana que casou com o filho de Indira Gandhi e que foi, tal como ela, assassinado.
Até aqui nada de especial. O problema é que as notícias passaram como cão por vinha vindimada - ou como gato sobre brasas - sobre os resultados das restantes forças políticas, designadamente os da Frente de Esquerda, integrada - surpresa! - pelo Partido Comunista da Índia (Marxista) e pelo Partido Comunista da Índia. Não se trata de um pormenor. Sem o seu apoio não haverá governo e com ele a política terá de mudar. O poder financeiro percebeu e entrou em pânico, e um analista do banco americano JP Morgan teme mesmo o crescimento da «despesa com o desenvolvimento rural, assim como as preocupações fiscais», e prevê que as «privatizações devem diminuir».
Pouco preocupados com a situação da população camponesa (60% do total), paupérrima, ou com os 250 milhões de indianos abaixo do nível de pobreza, os analistas e comentadores optaram por ignorar que a Frente de Esquerda passou de 36 para 60 deputados; que em Bengala Ocidental, há 27 anos governado pelos comunistas, a Frente elegeu 35 dos 42 deputados; ou que em Kerala a esquerda elegeu 18 dos 20 deputados, só para citar alguns exemplos.
Longe de nós pensar que se trata de discriminação. São critérios.