A multa
Quanto vale a vida de um iraquiano? A pergunta, feita numa altura em que por todo o mundo se vive a indignação e a revolta provocadas pelos testemunhos do tratamento desumano infligido pelas forças de ocupação aos presos iraquianos, pode parecer de retórica ou mesmo de manifesto mau gosto, mas não é nem uma coisa nem outra.
Partindo do princípio de que na vida tudo se compra e tudo se vende, tão caro à mais reaccionária mentalidade americana, e com o apurado sentido de oportunidade a que nos habituaram os políticos dos EUA, o cônsul norte-americano no Iraque, Paul Bremer, acaba de tomar uma medida a todos os títulos paradigmática: atribuiu um valor à vida dos indígenas a seu cargo.
Em termos ocidentais a quantia é modesta, mas não nos podemos esquecer que os tempos são de crise e que à luz dos valores da civilização cristã e ocidental os seres em causa não são propriamente gente, pelo que, para quem é, basta uns trocos.
Falando em dólares, a vida dos iraquianos não vai além das 2500 notas verdes, o que ao câmbio actual não chega a 2500 euros, ou seja menos de 500 contos, que foi justamente a maquia fixada por Bremer como multa a pagar por cada militar das forças ocupantes que mate um civil iraquiano «por engano».
A informação - divulgada do órgão digital ‘resistir.info’ - não mereceu honras de destaque nos órgãos de comunicação social, seja por se considerar normal esta forma de «compensação» por cada vida ceifado ao acaso, seja por ninguém acreditar que venha sequer a ser cumprida, seja ainda, admitamos, por uns resquícios de pudor em colocar em letra de forma mais esta indignidades dos amigos americanos.
E no entanto, por impossível que possa parecer, o pior não está ainda no valor fixado, mas no que com ele se pretende comprar.
De acordo com a deliberação de Bremer, o pagamento da multa livra o militar de qualquer responsabilidade penal, já que o responsável norte-americano decidiu que os tribunais iraquianos não podem abrir processos por queixas apresentadas contra membros das forças militares estrangeiras que ocupam o país.
Este exemplo não podia ser mais esclarecedor do que entendem os senhores da administração Bush por democracia e por respeito pela soberania iraquiana, a tal que vai ser entregue a 30 de Junho.
Ao fixar uma simples multa por cada assassinato, Bremer está ainda a dar uma mensagem clara aos soldados estacionados no Iraque: matar um iraquiano não é um crime, é uma diabrura, uma traquinice, uma travessura que, a ser conhecida, terá de ser castigada, ainda que o castigo seja brando e sem mais consequências do que um rombo no orçamento.
Face às notícias vinda a público sobre a forma como os militares se divertem com os presos ao seu cuidado, é de admitir que o clássico «vai um tirinho?» passe a constar no rol dos passatempos.
Já se sabe que Bremer está de saída e que Bush nomeou para o lugar o actual embaixador dos EUA na ONU, John Negroponte, tendo em conta a sua «enorme experiência e perícia». Para quem não sabe, diga-se que Negroponte - segundo pesquisa efectuada em 1995 pelo jornal Baltimore Sun - tem no seu currículo uma passagem pelas Honduras, entre 1981 e 1985, onde supervisionou um esquadrão da morte hondurenho treinado pela CIA. A organização, conhecida como ‘batalhão 3-16’, sequestrou, torturou e assassinou centenas de políticos da oposição ao governo hondurenho de direita, incluindo missionários norte-americanos.
É o que se chama ouro sobre azul.
Partindo do princípio de que na vida tudo se compra e tudo se vende, tão caro à mais reaccionária mentalidade americana, e com o apurado sentido de oportunidade a que nos habituaram os políticos dos EUA, o cônsul norte-americano no Iraque, Paul Bremer, acaba de tomar uma medida a todos os títulos paradigmática: atribuiu um valor à vida dos indígenas a seu cargo.
Em termos ocidentais a quantia é modesta, mas não nos podemos esquecer que os tempos são de crise e que à luz dos valores da civilização cristã e ocidental os seres em causa não são propriamente gente, pelo que, para quem é, basta uns trocos.
Falando em dólares, a vida dos iraquianos não vai além das 2500 notas verdes, o que ao câmbio actual não chega a 2500 euros, ou seja menos de 500 contos, que foi justamente a maquia fixada por Bremer como multa a pagar por cada militar das forças ocupantes que mate um civil iraquiano «por engano».
A informação - divulgada do órgão digital ‘resistir.info’ - não mereceu honras de destaque nos órgãos de comunicação social, seja por se considerar normal esta forma de «compensação» por cada vida ceifado ao acaso, seja por ninguém acreditar que venha sequer a ser cumprida, seja ainda, admitamos, por uns resquícios de pudor em colocar em letra de forma mais esta indignidades dos amigos americanos.
E no entanto, por impossível que possa parecer, o pior não está ainda no valor fixado, mas no que com ele se pretende comprar.
De acordo com a deliberação de Bremer, o pagamento da multa livra o militar de qualquer responsabilidade penal, já que o responsável norte-americano decidiu que os tribunais iraquianos não podem abrir processos por queixas apresentadas contra membros das forças militares estrangeiras que ocupam o país.
Este exemplo não podia ser mais esclarecedor do que entendem os senhores da administração Bush por democracia e por respeito pela soberania iraquiana, a tal que vai ser entregue a 30 de Junho.
Ao fixar uma simples multa por cada assassinato, Bremer está ainda a dar uma mensagem clara aos soldados estacionados no Iraque: matar um iraquiano não é um crime, é uma diabrura, uma traquinice, uma travessura que, a ser conhecida, terá de ser castigada, ainda que o castigo seja brando e sem mais consequências do que um rombo no orçamento.
Face às notícias vinda a público sobre a forma como os militares se divertem com os presos ao seu cuidado, é de admitir que o clássico «vai um tirinho?» passe a constar no rol dos passatempos.
Já se sabe que Bremer está de saída e que Bush nomeou para o lugar o actual embaixador dos EUA na ONU, John Negroponte, tendo em conta a sua «enorme experiência e perícia». Para quem não sabe, diga-se que Negroponte - segundo pesquisa efectuada em 1995 pelo jornal Baltimore Sun - tem no seu currículo uma passagem pelas Honduras, entre 1981 e 1985, onde supervisionou um esquadrão da morte hondurenho treinado pela CIA. A organização, conhecida como ‘batalhão 3-16’, sequestrou, torturou e assassinou centenas de políticos da oposição ao governo hondurenho de direita, incluindo missionários norte-americanos.
É o que se chama ouro sobre azul.