Os tutores

Vitor Dias
No passado domingo, uma reportagem inserida no telejornal da RTP/1 sobre uma iniciativa com Carlos Carvalhas em Braga fechou, não com qualquer frase ou afirmação do Secretário-geral do PCP, mas com a afirmação, em voz «off», do jornalista da RTP de que se tratava de um discurso do PCP «sempre crí­tico... e se­me­lhante», o que é uma maneira sofisticada de passar ao telespectador a mensagem mais prosaica de que «dizem sempre mal e dizem sempre o mesmo».
É certo que esta prática, este estilo ou este truque não têm novidade nas televisões, antes são bastante velhos, embora tenham conhecido períodos de maior pousio e de maior erupção.
Mas, à beira da cobertura de uma campanha eleitoral, convinha que os directores de informação, a começar pelo da RTP, ponderassem de forma serena e responsável se isto é decente, aceitável e correcto.
Comecemos por dizer que, além do mais, naquele caso concreto que citámos, a observação final do jornalista era absolutamente injustificada e preconceituosa porque a reportagem tinha precisamente mostrado Carlos Carvalhas a falar de um assunto que era novidade no discurso do PCP, ou seja a crítica ao silêncio (até então) de Durão Barroso face aos casos de tortura no Iraque.
Acrescentemos depois que se a mistura de notícias com comentários já é contestável na imprensa, então na televisão a sua perversidade aumenta exponencialmente dado o prático anonimato do comentário que, perante o telespectador, ganha a forma de «foi a televisão que disse».
Anotemos também que, a este respeito, não se venha gritar pela autonomia da função dos jornalistas porque esta, em sede de cobertura de actos, iniciativas ou discursos políticos, se deve exercer não no terreno de comentários e opiniões mas no terreno da natural selecção dos elementos noticiosos ou dos fragmentos dos discursos que os jornalistas livremente escolhem.
E sublinhe-se ainda que o remate de reportagens com comentários hostis é evidentemente uma forma vergonhoso e ilegítima de procurar «assassinar» a comunicação de um dirigente político ou candidato que antes se transmitiu.
Faltando saber, ou talvez já haja resposta para isso, se o mesmo é feito para todas as forças políticas e se para todos é feito com o mesmo grau de veneno ou hostilidade.
Falando claro, é preciso dizer com todas as letras que truques destes, 30 anos depois do 25 de Abril, traduzem por parte de quem os pratica ou consente a intolerável pretensão de agirem como tutores políticos dos telespectadores e dos eleitores a quem, por esta via e por alguma razão, se quer impedir de pensarem pela sua própria cabeça, sem necessidade da «ajuda» dos comentários ou opiniões dos jornalistas.


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