Vencer a amnésia

Luís Carapinha

As ameaças dos desenvolvimentos a Leste não devem ser subestimadas.

O 59º aniversário da grande vitória sobre o nazi-fascismo passou distante nos media. A indiferença foi a nota dominante, sem mencionar os casos mais patológicos. Quando a escalada militarista e a barbárie se intensificam, e o neoliberalismo e neocolonialismo mais desbragados brotam de todos os poros do capitalismo contemporâneo, o anticomunismo e a irracionalidade regressam em toda a linha. Uma das vertentes da globalização imperialista é precisamente a tentativa de desvirtuamento da memória histórica dos povos. Para as forças do grande capital, apesar das suas nuances metodológicas – que reflectem, aliás, a instabilidade, em crescendo, que o sistema novamente revela –, as lições da história, em particular as decorrentes das lutas dos povos, representam um corpo estranho, uma ameaça a esconjurar. Por isso, contra as tendências perigosas de esquecimento e revisionismo da verdade histórica, é oportuno relembrar a contribuição decisiva da URSS e do socialismo na derrota do nazi-fascismo, em defesa da paz, pelo progresso social, ou, recuando no tempo, recordar Brest-Litovsk e toda a estratégia revolucionária de comprometimento dos bolcheviques para com a paz, ao contrário do «pragmatismo» colaboracionista que pautou a atitude da maioria das restantes forças políticas, na I Guerra Mundial.
Na Rússia contemporânea, a pompa e circunstância das comemorações oficiais do 9 de Maio soam a hipocrisia. A retórica patrioteira de forças que traíram o seu povo e o legado da vitória de 1945, poderá significar o desejo de regresso do hegemonismo chauvinista que anima certos sectores da oligarquia e elite russas, mas não anula as consequências dramáticas da desagregação da URSS e da restauração capitalista.

A expansão da NATO até às fronteiras russas constitui hoje uma realidade insofismável. A aliança «transatlântica», que agora se arvora no direito de intervir bem longe das suas fronteiras, reforça a máquina de guerra, criando novas bases militares na Polónia e nos recém admitidos Bulgária, Roménia e antigas repúblicas soviéticas do Báltico, apesar das (inconsistentes) garantias prévias em contrário. À recente segunda vaga do alargamento sucedem-se novos planos de expansão. O tratado com a Ucrânia, promulgado pelo presidente Kutchma no passado mês, que estabelece o acesso rápido ao país das forças NATO, é neste sentido particularmente grave, e revelador da subserviência do poder instrumentalizado de Kiev, que, aliás, enviou um contingente de 1600 soldados para o Iraque.
O assassinato do presidente tchetcheno é mais um sintoma da desestabilização larvar que mina a Federação Russa, nomeadamente na zona nevrálgica do Cáucaso. Toda esta situação evidencia claramente uma fragilização geoestratégica e as ambiguidades e contradições da classe dirigente, num país onde a polarização e degradação sociais são acentuadas e a economia depende consideravelmente da exportação de matérias-primas, como petróleo e gás.

As ameaças dos desenvolvimentos a Leste não devem ser subestimadas. O alargamento da NATO, seguido de perto pelo alargamento da UE, correspondem no essencial a uma agenda múltipla de objectivos estratégicos profundos do grande capital e das grandes potências, que não favorecerá os interesses das camadas trabalhadoras, os «pequenos» países e a paz entre os povos, contrariamente às ilusões que ainda possam existir em alguns segmentos.
Os desafios que se apresentam a todas as forças progressistas e revolucionárias verdadeiramente representativas são complexos, mas não são fatais. Exigem lucidez profunda na avaliação da situação e definição dos objectivos próximos, e, acima de tudo, um compromisso inequívoco com os interesses dos trabalhadores, no reforço da luta pela paz e a democracia, contra a exploração capitalista e o imperialismo.


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