Reuniões nacionais dos estudantes do secundário e do superior da JCP

Revolução na educação

Isabel Araújo Branco
Os estudantes comunistas do ensino secundário e superior reuniram-se em Lisboa, no sábado, para partilhar experiências, discutir resultados das respectivas lutas, analisar as políticas do Governo e decidir as estratégias a seguir no futuro. Nesse dia, seis participantes inscreveram-se no Partido.
A colectividade lisboeta Voz do Operário acolheu, no sábado, o 9.º Encontro Nacional do Ensino Secundário (ENES) e a 11.ª Conferência Nacional do Ensino Superior (CNES) da JCP, iniciativas que juntaram cerca de três centenas de jovens militantes comunistas.
«A luta é a única forma de demonstrar o nosso descontentamento. Não é um acto mecânico, mas um reflexo das insatisfações, vivida colectivamente», sustentou José Rui Santos, na ENES, lembrando os problemas das escolas portuguesas, as deficiências de materiais nos laboratórios, a falta de livros nas bibliotecas, a pouca qualidade das cantinas, a inexistência de ginásios e pavilhões polidesportivos.
«Os comunistas têm um papel fundamental. Somos um pólo dinamizador, os que não quebram nem desistem, perspectivando alternativas e soluções. Somos a vanguarda da luta», sublinhou.
Márcio Eduardo, da Moita, referiu as condições da sua escola, bastante degradada, sem vidros em janelas e com falta de contínuos para manter o funcionamento normal. «Se a gente não falar, a luta cai por terra. Por isso não nos podemos calar», afirmou.
Mas não se falou apenas das deficiências materiais e humanas das escolas portuguesas. A política educativa, a reforma curricular, a Lei de Bases do Sistema Educativo, o acesso ao ensino superior, o sistema de avaliação, a educação sexual e a privatização do foram questões também debatidas.
Para a JCP, a mudança de Governo não trouxe nada de novo. «O PSD é ainda pior do que o PS. Os novos currículos esquecem o carácter geral da escola, virada para a cidadania e para a formação do indivíduo, para a participação na sociedade», referiu Francisco Martins. «Alguns jovens são alheados da política, mesmo da política educativa. O Governo contribui para isso ao ignorar a luta, fá-los pensar que não adianta lutar», acrescentou. Os estudantes são empurrados para o mercado de trabalho «para não gastarem dinheiro ao Estado, como se o desenvolvimento do País não passasse pelos estudantes e pelo ensino».
Francisco Martins apelou aos militantes que diversifiquem as formas de luta, evitando cair na rotina, falando da sua experiência. «Por exemplo, no ano passado, as associações de estudantes de Braga organizaram concertos na Avenida Central. Já este ano, preparámos uma recepção ao ministro da Educação com mil estudantes, que esperaram três horas ao sol. Não por o ministro ser bonito, mas porque criámos a consciência de que as políticas são más e que precisamos de uma educação que forme para a intervenção e para o futuro», afirmou.

Ao lado dos estudantes

Também nas lutas do ensino superior, os militantes comunistas são fundamentais na luta contra a Lei de Financiamento, as carências na Acção Social Escolar, o abandono e o insucesso escolar e a falta de qualidade pedagógica. «A JCP impulsionou o movimento unitário e é por todos reconhecida como a organização que faz o que as AEs não fazem na luta estudantil», considerou Paulo Pinto, durante a CNES.
«Tornou-se claro quem está com os estudantes e quem está contra eles. Temos de ser combativos contra as políticas neo-liberais e travar a mercantilização do ensino. Os estudantes são o alvo desta estratégia e os primeiros a se aperceberem disso», declarou Miguel Tiago, para quem «a luta é capaz de mobilizar todos os estudantes, porque toca a todos. Forma-se na realidade, proporcionando a muitos jovens pela primeira vez caminhar lado a lado numa luta de massas.»
Miguel Tiago salientou que a JCP está presente nas turmas e na preparação da luta a todos os momentos. «Os nossos militantes sentem, ouvem, discutem e reagem e temos legitimidade para afirmar que conhecemos os problemas do ensino superior e que estamos do lado da luta. Não nos deteremos com desânimo. Cumpriremos o nosso papel nas AEs e na informação dos estudantes para a defesa dos nossos direitos», acrescentou.
A partidarização de diversas direcções de AEs foi referida por vários participantes. Vítor Rodrigues abordou a tentativa de várias juventudes partidárias de esvaziar a componente política das associações. «Ainda assim, o ENDA é o espaço mais democrático e prepara activamente a luta», referiu.
«A JCP é um instrumento para transformar a escola, o Governo e a política do Governo. Ninguém melhor do que nós está em condições de intervir no movimento estudantil», sublinhou.
Marta Marques lembrou que as universidades privadas se desenvolveram por o Estado não dar resposta às necessidades educativas do País. «Isto não é inocente. O conhecimento está a ser mercantilizado», comentou. «O aumento das propinas e os cortes na Acção Social Escolar das universidades públicas contribuem para as privadas, porque um estudante que entra numa instituição noutra localidade pensa duas vezes nas despesas e acaba por pagar menos se estudar numa privada ao pé de casa», salientou.
Os direitos dos estudantes das universidades privadas estão mal consagrados. «Aliás, estamos privados de direitos, faz-se pouco investimento na qualidade do ensino e as propinas têm valores exorbitantes. Num curso de cinco anos pagamos no mínimo 2500 contos, sem contar com os exames e outras despesas», especificou.
«A defesa do ensino público é uma luta de todos, não é uma afronta aos estudantes do privado, bem pelo contrário», sustentou.


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