A «evolução»

Henrique Custódio
Segundo os jornais, o Governo quer que as comemorações do 25 de Abril sejam «expurgadas de cargas político-partidárias», passando a constituir «uma festa de afirmação da auto-estima nacional». Isto com o objectivo de provar que «os portugueses devem estar orgulhosos de si mesmos» e que «Portugal é um país onde vale a pena viver».
Para completar o ramalhete e pôr a «mudança» a andar, o Executivo de Durão Barroso vai nomear «um historiador» – trabalho sério, como se vê, feito por «especialistas»… -, que será o «comissário» que vai executar um «programa de comemorações», cujo o Governo pretende «com os olhos postos no futuro».
É tal o empenho na mudança, que até a alteração do símbolo das comemorações já foi devidamente ponderada: continuará a reproduzir um cravo, mas o vermelho desaparecerá (t’arrenego, satanás!) e o lema passa a ser «Abril é evolução».
Parece uma anedota, mas obviamente é para levar a sério.
Levemos, então.
Deixando de lado, por agora, a ideia de «expurgar o 25 de Abril de cargas político-partidárias», observemos as outras justificações apresentadas, pelo Governo, para tão misteriosa alteração.
Ter por objectivo fazer do 25 de Abril «uma festa de afirmação da auto-estima nacional», além de redundante, é absolutamente inútil: o 25 de Abril constituiu-se, logo à partida, talvez na maior festa de auto-estima nacional desde a descoberta do caminho marítimo para a Índia, como bem ficou atestado com a formidável manifestação realizada dias depois, nas comemorações do 1.º de Maio, logo a seguir ao golpe militar que derrubou o regime fascista. E a festa nunca mais parou até hoje, em todo o lado onde haja portugueses.
Se o PSD e o CDS/PP ainda não deram por isso é, no mínimo, estranho.
Demonstrar que «os portugueses devem estar orgulhosos de si mesmos» e que «Portugal é um país onde vale a pena viver» é exactamente o que o 25 de Abril veio não apenas concretizar como, sobretudo, permitir. E permitiu-o ao derrubar uma tirania ignóbil que, ela sim, envergonhava quem cá a sofria e lançava na fuga para o estrangeiro crescentes vagas de portugueses para quem, precisamente, não valia a pena cá viver. É exactamente tudo isso que as comemorações sempre celebraram.
Para quê, então, modificá-las?
A não ser que o PSD e o CDS/PP pretendam esconder isso mesmo – que o 25 de Abril devolveu o orgulho de ser português e o gosto de viver em Portugal.
Para eles, derrubar ditadores e tiranias só no Iraque e à trela dos EUA. Sendo esse derrube em Portugal e feito por patriotas portugueses, pelos vistos nem querem tomar conhecimento…
Sendo assim, começa a clarificar-se o mistério deste súbito desejo do Governo PSD-CDS/PP em fazer com que as comemorações do 25 de Abril sejam «expurgadas de cargas político-partidárias».
Por acaso, as «cargas político-partidárias» foram um dos pilares fundamentais da Revolução de Abril – tão fundamentais que construíram e constituem a essência do regime democrático que rege Portugal há 30 anos, e por acaso lhes deu o poder que exercem há dois anos.
Pretender «expurgá-las» é como recusar a democracia que temos e a Revolução que a permitiu.
Daí que, apesar de pretender um programa de comemorações «com os olhos postos no futuro», o Governo PSD-CDS/PP esteja, afinal e simplesmente, com saudades do passado.
O passado que a Revolução de Abril derrotou e que tanto o PSD como o CDS/PP tentaram reanimar.
Nessa altura, para eles, Abril era contra-revolução.
Agora querem reactivar esses tempos, chamando-lhe «evolução»...


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