Fórum Social Mundial
O FSM não serviu para exportar ou importar lutas ou ideias mas sim para as conhecer
«Um enorme e constante caudal de Manifestações» será possivelmente a frase que melhor o descreve. Falamos do Fórum Social Mundial que pela primeira vez se realizou fora do Brasil. A escolha foi Mumbai na Índia, Bombaim para os Portugueses, com os seus mais de 15 milhões de habitantes, montra gigante da destruição e degradação capitalistas «exportadas» pelo capital transnacional para o chamado 3.º mundo, o seu caixote do lixo.
Mumbai é uma cidade onde milhões de pessoas não vivem, não sobrevivem sequer! Pura e simplesmente «existem». «Existem» no seu metro quadrado de terra que, por revolvido ser, passa a ser a sua casa. «Existem» debaixo de labirínticos bairros de bambu cobertos de plástico negro mesclado com zinco corroído, sem água, luz, esgotos, ruas até. Doenças como a Lepra, erradicadas dos ditos países desenvolvidos há décadas, afectam os habitantes de Mumbai e confrontam-nos todos os dias com a morte prematura. Os esgotos a céu aberto em que se transformaram os rios e a asfixiante poluição atmosférica completam um degradante e revoltante cenário impossível de descrever nestas linhas. Paralelamente uma classe, erradamente chamada de média, ligada ao grande capital transnacional enriquece rapidamente e faz crescer em Mumbai os grandes prédios espelhados isolados do mundo daqueles que lá fora «existem» na indigência e que na Índia são centenas de milhões. Esses continuam a alimentar, conjuntamente com o BJP – o partido que lidera a coligação governamental de direita / extrema direita – uma perigosa e mesmo pré-fascista política que combina ódio religioso e étnico com divisão da sociedade em castas hindus para garantir a manutenção do seu poder económico e político à custa da exploração de muitos como os «Dalits» (ou «intocáveis» ou «sem casta») que postos à margem da sociedade se vêm, por descendência, excluídos de serviços básicos como a saúde e vêm negados direitos como a habitação e emprego, servindo de mão de obra quase escrava.
O chocante simbolismo de Mumbai conferiu ao Fórum Social Mundial uma atmosfera especial. Se em outros fóruns os grandes debates reuniam os intelectuais e sobretudo a média burguesia, em Mumbai foram as ruas do Nesco Grounds (um antigo complexo fabril) que se encheram de manifestações constantes. Os debates, realizados sobretudo em Inglês, sem tradução e imperceptíveis para muitos dos participantes ficaram, salvo raras excepções entre as quais o debate sobre «Socialismo» promovido pelos comunistas, muito aquém das expectativas e reuniam sobretudo os não Asiáticos.
Houve, como disseram alguns, dois fóruns. O dos debates e o das ruas. Nisso estaremos todos de acordo. Onde já não há acordo é no balanço deste FSM. Para alguns foi o caos; para outros «a real internacionalização do FSM»; para outros ainda, foi, mesmo que não declarado, um intervalo no «verdadeiro» fórum, o de Porto Alegre. Mais leituras virão, mais ou menos demagógicas ou lúcidas, consoante as necessidades de visibilidade política e de poder. Mas a verdade estava à vista! Essa reside no facto de que mesmo na Índia, onde o sistema oprime, exclui e mata numa dimensão impressionante, havia, há e haverá importantes movimentos de luta e resistência. Se é verdade que muitos movimentos e activistas levaram a Mumbai, por ocasião do FSM, as suas lutas e as suas ideias, não é menos verdade que mais uma vez esta iniciativa foi incrivelmente marcada pela realidade política, pelas lutas que se travam na região e pelos seus protagonistas que fizeram sentir àqueles que lá se deslocaram a força dos seus movimentos e das suas lutas. A verdade é que o FSM não serviu para exportar ou importar lutas ou ideias mas sim para as conhecer. E só podia ser assim! O FSM aproximou-se, naqueles dias, daquilo que nós e tantos outros defendem. Um amplo espaço, sem exclusões e preconceitos anti-comunistas, sem «velhos» e «novos» movimentos, que possibilita a todos os que lutam um momento de encontro, de troca de experiências, de unidade na acção, de recuperação de forças para continuar os seus processos de luta pelo seu mundo que querem diferente.
Claro que, num Fórum deste tipo, aqueles que vêm o FSM como um novo directório de movimentos; como um trampolim político-partidário ou como um instrumento para se recuperarem – instrumentalizando as massas – de crises de poder e/ou ideológicas ficaram como não poderia deixar de ser... a falar sozinhos!
Mumbai é uma cidade onde milhões de pessoas não vivem, não sobrevivem sequer! Pura e simplesmente «existem». «Existem» no seu metro quadrado de terra que, por revolvido ser, passa a ser a sua casa. «Existem» debaixo de labirínticos bairros de bambu cobertos de plástico negro mesclado com zinco corroído, sem água, luz, esgotos, ruas até. Doenças como a Lepra, erradicadas dos ditos países desenvolvidos há décadas, afectam os habitantes de Mumbai e confrontam-nos todos os dias com a morte prematura. Os esgotos a céu aberto em que se transformaram os rios e a asfixiante poluição atmosférica completam um degradante e revoltante cenário impossível de descrever nestas linhas. Paralelamente uma classe, erradamente chamada de média, ligada ao grande capital transnacional enriquece rapidamente e faz crescer em Mumbai os grandes prédios espelhados isolados do mundo daqueles que lá fora «existem» na indigência e que na Índia são centenas de milhões. Esses continuam a alimentar, conjuntamente com o BJP – o partido que lidera a coligação governamental de direita / extrema direita – uma perigosa e mesmo pré-fascista política que combina ódio religioso e étnico com divisão da sociedade em castas hindus para garantir a manutenção do seu poder económico e político à custa da exploração de muitos como os «Dalits» (ou «intocáveis» ou «sem casta») que postos à margem da sociedade se vêm, por descendência, excluídos de serviços básicos como a saúde e vêm negados direitos como a habitação e emprego, servindo de mão de obra quase escrava.
O chocante simbolismo de Mumbai conferiu ao Fórum Social Mundial uma atmosfera especial. Se em outros fóruns os grandes debates reuniam os intelectuais e sobretudo a média burguesia, em Mumbai foram as ruas do Nesco Grounds (um antigo complexo fabril) que se encheram de manifestações constantes. Os debates, realizados sobretudo em Inglês, sem tradução e imperceptíveis para muitos dos participantes ficaram, salvo raras excepções entre as quais o debate sobre «Socialismo» promovido pelos comunistas, muito aquém das expectativas e reuniam sobretudo os não Asiáticos.
Houve, como disseram alguns, dois fóruns. O dos debates e o das ruas. Nisso estaremos todos de acordo. Onde já não há acordo é no balanço deste FSM. Para alguns foi o caos; para outros «a real internacionalização do FSM»; para outros ainda, foi, mesmo que não declarado, um intervalo no «verdadeiro» fórum, o de Porto Alegre. Mais leituras virão, mais ou menos demagógicas ou lúcidas, consoante as necessidades de visibilidade política e de poder. Mas a verdade estava à vista! Essa reside no facto de que mesmo na Índia, onde o sistema oprime, exclui e mata numa dimensão impressionante, havia, há e haverá importantes movimentos de luta e resistência. Se é verdade que muitos movimentos e activistas levaram a Mumbai, por ocasião do FSM, as suas lutas e as suas ideias, não é menos verdade que mais uma vez esta iniciativa foi incrivelmente marcada pela realidade política, pelas lutas que se travam na região e pelos seus protagonistas que fizeram sentir àqueles que lá se deslocaram a força dos seus movimentos e das suas lutas. A verdade é que o FSM não serviu para exportar ou importar lutas ou ideias mas sim para as conhecer. E só podia ser assim! O FSM aproximou-se, naqueles dias, daquilo que nós e tantos outros defendem. Um amplo espaço, sem exclusões e preconceitos anti-comunistas, sem «velhos» e «novos» movimentos, que possibilita a todos os que lutam um momento de encontro, de troca de experiências, de unidade na acção, de recuperação de forças para continuar os seus processos de luta pelo seu mundo que querem diferente.
Claro que, num Fórum deste tipo, aqueles que vêm o FSM como um novo directório de movimentos; como um trampolim político-partidário ou como um instrumento para se recuperarem – instrumentalizando as massas – de crises de poder e/ou ideológicas ficaram como não poderia deixar de ser... a falar sozinhos!