Vivinho da costa

José Casanova
É digna de registo a forma notável como a comunicação social dominante vende, apregoando-o fresco e vivinho da costa, o peixe que os seus patrões querem que seja vendido. Sem excepções e num unanimismo total e pragmático (que, todavia, não põe em causa o muito anunciado e louvado pluralismo...), os media cumprem, diária e disciplinadamente, aquele que é o seu objectivo essencial, a sua razão de existir: defender os interesses do grande capital – para o caso o seu patrão e dono, como toda a gente sabe.
Atentemos em três exemplos concretos da utilização daquele pragmatismo unanimista ao serviço desse objectivo essencial: a política de direita – a favor da qual são todos os media; o PCP – contra o qual todos estão; o Bloco de Esquerda – por todos tratado com carinhos maternais.
A comunicação social é propriedade dos grandes grupos económicos e os grandes grupos económicos são os principais beneficiários da política de direita: logo, é óbvio e fácil de entender o apoio dado por todos os media à política de direita, seja ela praticada pelo PSD, pelo PS, pelos dois em conjunto ou por cada um deles com o CDS-PP atrelado (é óbvio, também, o saudável pluralismo praticado pelos media em matéria de preferências partidárias: uns simpatizam mais com o PS, outros preferem curvar-se ao PSD, outros optam por inclinar-se para o CDS-PP).
Quanto ao segundo exemplo: sendo os media de quem são e, por isso, defendendo eles a política que defendem, lógico é que façam do PCP o alvo maior dos seus ataques – pela simples razão de que o PCP é o único partido nacional que, de facto, dá combate à política de direita e lhe contrapõe uma política alternativa, isto é, de esquerda.
Finalmente, quanto ao terceiro exemplo e recapitulando: sendo os media de quem são; defendendo a política que defendem; fazendo do PCP o alvo maior dos seus ataques, lógico é que apoiem tudo o que vise enfraquecer o PCP e, por isso, tratem o Bloco de Esquerda com cuidados de chupeta e biberon. Na verdade, para os media e para os seus donos, o Bloco de Esquerda assume, neste contexto, uma dupla importância: esconde bem, por detrás de uma radicalidade exclusivamente verbalista, o facto real de, no que respeita ao sistema, nada – rigorosamente nada – de essencial pôr em causa e constitui, por essa razão, pensam eles, o melhor instrumento para minar as bases eleitorais do PCP. Tudo peixe fresco, como se vê.


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