Reforçar a luta dos trabalhadores
Reforçar a intervenção do Partido junto dos trabalhadores intelectuais é um dos objectivos principais da Assembleia do Sector Intelectual de Lisboa, que se realiza a 14 de Fevereiro.
O PCP quer aumentar a sua presença junto dos trabalhadores intelectuais. Este é um dos principais objectivos que o Sector Intelectual de Lisboa do PCP define para a sua quarta Assembleia de Organização, a realizar no próximo dia 14 de Fevereiro. O lema – resistir, crescer, transformar – retrata os intuitos da reunião.
Carlos Grilo, responsável pelo sector, reconhece as profundas alterações ocorridas nas condições de vida e de trabalho dos intelectuais, nos últimos anos. E considera que a estrutura orgânica do sector corresponde às necessidades de intervenção do Partido. A grande preocupação, prossegue Carlos Grilo, é fazer uma intervenção específica para este sector, com iniciativa própria, mas integrada na actividade mais geral do Partido. No plano das massas, o esforço é dirigido para a integração no movimento mais geral dos trabalhadores.
«O projecto de resolução política prevê que, no caso de serem necessárias alterações orgânicas, sejam os próprios sub-sectores a propô-las», afirma o responsável pelo sector. Filipe Diniz, actual dirigente do sector, concorda e adianta que o «Sector Intelectual é um sector de sectores», todos com algo em comum, mas cada um com as suas características próprias.
Carlos Grilo põe a tónica no recrutamento. Em sua opinião, esta é a melhor maneira para reforçar a influência do Partido junto destes trabalhadores. A maioria dos militantes do sector intelectual de Lisboa do PCP tem mais de 50 anos e chegar aos jovens que assumem profissões intelectuais – muitos deles com vínculos precários – é uma necessidade. Mas já muito se tem feito para renovar e rejuvenescer o sector, destaca. A lista para a direcção, que está em fase de construção, associará a «experiência e o valor de muitos camaradas há muito na direcção do sector intelectual e outros, mais novos, que se têm destacado», conta Grilo.
Intervir na luta das ideias
Para Manuel Gusmão, os intelectuais têm um importante papel a desempenhar na luta das ideias. O dirigente comunista entende ser necessário «conhecer as condições em que trabalhamos e os temas em que podemos insistir». E propõe a questão dos direitos como um dos temas que se deve colocar. «Há uma plataforma de direitos, conquistada no século XX, que está hoje a ser posta em causa», destaca. Estes direitos não são apenas individuais, mas sobretudo colectivos.
Outra das questões que Manuel Gusmão levanta prende-se com a «actual ofensiva à democracia, nomeadamente à democracia política». Mas o dirigente comunista destaca um outro tema, com imensa tradição junto dos intelectuais portugueses: a luta pela Paz, contra a guerra. No passado, recorda, os intelectuais tiveram um importante papel na luta contra a guerra e é possível fazer ligações com o presente.
Carlos Grilo considera que muito há a fazer no plano da luta ideológica. Para este membro do Comité Central, a influência do Partido nesta luta terá de ser reforçada, partindo dos seus princípios, mas reforçando o trabalho unitário, com outros trabalhadores intelectuais não comunistas. Este trabalho «deve permitir uma mobilização para a acção, conjuntamente com o movimento operário, para conseguir uma ruptura com a política de direita e promover a alternativa de esquerda».
Precariedade, falso emprego, desemprego
Profissões em mudança
Já lá vai o tempo em que as actividades intelectuais eram património de uma elite social, originária das classes mais favorecidas e instruídas da população. Actualmente, isto já não é assim. Lembrando que os intelectuais são uma camada social heterogénea e transversal do ponto de vista das classes, Filipe Diniz, membro da direcção do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, destaca que a maioria destes trabalhadores são assalariados. Muitos trabalham em condições precárias, quantas vezes a recibos verdes. A tendência para a precarização do trabalho é geral, mas afecta agora também os intelectuais, destaca Manuel Gusmão, igualmente dirigente do sector.
Outra das realidades do emprego científico actual é a utilização gratuita dos conhecimentos e capacidades de jovens cientistas, que prestam o seu trabalho na condição de bolseiros, muitas vezes durante vários anos.
Manuel Gusmão destaca uma outra realidade: ao mesmo tempo que cresce o número de licenciados em Portugal aumenta também o desemprego nesta camada. É, aliás, no grupo dos licenciados que o desemprego mais tem aumentado, afirma.
Para Filipe Diniz, o desemprego de trabalhadores qualificados deve-se à política de desindustrialização e de destruição do aparelho produtivo que tem vindo a acontecer no País nas duas últimas décadas. Filipe Diniz considera que as empresas portuguesas são pequenas e não têm dimensão para suportar o investimento em investigação. Para este dirigente, para que a economia se desenvolva são necessárias empresas com uma «dimensão que permita que investigação e desenvolvimento sejam, eles próprios, rentáveis». «Como a lógica é exactamente a contrária, de enfraquecer o aparelho produtivo, não há investigação», remata.
Manuel Gusmão denuncia o que considera ser o bloqueio à universidade pública, com clara influência no desemprego dos jovens licenciados ou pós-graduados. Na sua opinião, bloqueia-se o avanço nas carreiras docentes dos actuais professores, bem como a admissão de jovens diplomados. «Há uma geração perdida», lamenta. «Algumas destas pessoas, que são brilhantes, foram formadas pela universidade pública, a mesma que não as consegue trazer para o seu seio e pô-las a trabalhar», destaca.
«Faz-se passar a ideia de que os licenciados desempregados são sobretudo da área das Humanidades», afirma Filipe Diniz. Mas esta ideia é falsa, destaca. Embora Portugal tenha poucos licenciados nas áreas científicas (está muito abaixo da Irlanda e da Grécia), «é nessas áreas que se verificam as maiores taxas de desemprego», denuncia o dirigente do Sector Intelectual.
As alterações
As profissões intelectuais estão em mutação. Já não são património de elites. O número de indivíduos cuja formação escolar os coloca na condição de intelectuais aumentou. Mas a sua integração na profissão é, em muitos casos, difícil. O projecto de resolução política debruça-se com profundidade sobre o estado actual das profissões intelectuais.
Professores
No que respeita aos professores do Ensino Superior Público, verifica-se um grande fosso geracional, que resulta do preenchimento dos quadros em meados dos anos 80. Desde então que não se verifica qualquer abertura de quadros nem alargamento. Pelo contrário, reduz. Os cortes orçamentais têm conduzido à criação de situações desintegradoras da perspectiva de carreira profissional, nomeadamente através do recurso a bolseiros para o lugar de assistentes. No privado, não existe carreira docente e muito do trabalho é prestado em regime de prestação de serviços. O recrutamento é feito normalmente junto dos grupos ideológico e político-económicos que giram à volta das instituições. No ensino não-superior, a situação assemelha-se, de certa maneira, à do ensino superior público, nomeadamente com a existência de uma fronteira geracional. Nos últimos anos, esta realidade tem-se vindo a alterar, estando a geração do pós-25 de Abril a ser substituída por outra, com situação precária e sem direitos. «Nomadismo» e desemprego são realidades quotidianas de muitos jovens professores.
Arquitectos
Classe profissional muito jovem – 75 por cento terão menos de 40 anos –, os arquitectos vêem hoje saturadas as suas saídas profissionais tradicionais, na administração pública e no ensino. Existe um processo de especialização, diferenciação e hierarquização internas na profissão. Muitos arquitectos são assalariados de outros arquitectos – ou, mais frequentemente, prestam serviço a recibo verde – e desempenham funções de desenhador. O preço do trabalho degrada-se e o actual modelo de estágio de acesso à profissão, promovido pela Ordem dos Arquitectos, tende a constituir uma fonte anual de mão-de-obra gratuita para muitos gabinetes.
Jornalistas
Profissão marcada por uma crescente precarização dos vínculos laborais e pela exploração desenfreada. O recurso, por parte das empresas, ao trabalho gratuito de estagiários ou licenciados sem emprego é cada vez maior. Feriados não pagos, ausência de subsídio de refeição, desregulamentação dos horários, contratos individuais são frequentes nesta profissão. A concentração dos meios de comunicação social num pequeno número de grupos económicos dificulta que os trabalhadores mais combativos e reivindicativos possam conseguir novo trabalho se perderem o emprego, o que funciona como pressão. Todos os atropelos aos direitos e a ameaça do desemprego pesam definitivamente sobre o conteúdo da informação produzida. Tudo isto contribui para que a informação e a programação sejam hoje tratadas como uma indústria de conteúdos, fundamentalmente com interesse económico.
Psicólogos
A situação dos psicólogos tem vindo a agravar-se nas suas diferentes áreas de intervenção. O desemprego, o emprego precário e a exploração de trabalho voluntário gratuito são realidades comuns, inclusivamente no Estado. Para além dos problemas que afectam todos os outros trabalhadores, os psicólogos sofrem do facto de a psicologia não ser ainda considerada uma área fundamental do saber, indispensável para a formação de crianças e jovens, e no combate às múltiplas pressões que afectam actualmente os indivíduos.
Profissões artísticas
A situação dos artistas plásticos, dos trabalhadores do teatro e dos músicos não é também muito positiva. O aumento dos formados nestas áreas não tem correspondência com o aumento de saídas profissionais. No caso do teatro, os actores poucas vezes fazem parte do corpo fixo dos teatros, sendo contratados para trabalhos específicos. Na televisão, a situação é praticamente de monopólio, o que dificulta o aparecimento de novos actores. No caso dos músicos, é o poder local que assegura a sobrevivência de muitos conjuntos. Com a redução das verbas para as autarquias, reduz-se o número de espectáculos e estes trabalhadores vêem a sua situação piorar ainda mais.
Já lá vai o tempo em que as actividades intelectuais eram património de uma elite social, originária das classes mais favorecidas e instruídas da população. Actualmente, isto já não é assim. Lembrando que os intelectuais são uma camada social heterogénea e transversal do ponto de vista das classes, Filipe Diniz, membro da direcção do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, destaca que a maioria destes trabalhadores são assalariados. Muitos trabalham em condições precárias, quantas vezes a recibos verdes. A tendência para a precarização do trabalho é geral, mas afecta agora também os intelectuais, destaca Manuel Gusmão, igualmente dirigente do sector.
Outra das realidades do emprego científico actual é a utilização gratuita dos conhecimentos e capacidades de jovens cientistas, que prestam o seu trabalho na condição de bolseiros, muitas vezes durante vários anos.
Manuel Gusmão destaca uma outra realidade: ao mesmo tempo que cresce o número de licenciados em Portugal aumenta também o desemprego nesta camada. É, aliás, no grupo dos licenciados que o desemprego mais tem aumentado, afirma.
Para Filipe Diniz, o desemprego de trabalhadores qualificados deve-se à política de desindustrialização e de destruição do aparelho produtivo que tem vindo a acontecer no País nas duas últimas décadas. Filipe Diniz considera que as empresas portuguesas são pequenas e não têm dimensão para suportar o investimento em investigação. Para este dirigente, para que a economia se desenvolva são necessárias empresas com uma «dimensão que permita que investigação e desenvolvimento sejam, eles próprios, rentáveis». «Como a lógica é exactamente a contrária, de enfraquecer o aparelho produtivo, não há investigação», remata.
Manuel Gusmão denuncia o que considera ser o bloqueio à universidade pública, com clara influência no desemprego dos jovens licenciados ou pós-graduados. Na sua opinião, bloqueia-se o avanço nas carreiras docentes dos actuais professores, bem como a admissão de jovens diplomados. «Há uma geração perdida», lamenta. «Algumas destas pessoas, que são brilhantes, foram formadas pela universidade pública, a mesma que não as consegue trazer para o seu seio e pô-las a trabalhar», destaca.
«Faz-se passar a ideia de que os licenciados desempregados são sobretudo da área das Humanidades», afirma Filipe Diniz. Mas esta ideia é falsa, destaca. Embora Portugal tenha poucos licenciados nas áreas científicas (está muito abaixo da Irlanda e da Grécia), «é nessas áreas que se verificam as maiores taxas de desemprego», denuncia o dirigente do Sector Intelectual.
Carlos Grilo, responsável pelo sector, reconhece as profundas alterações ocorridas nas condições de vida e de trabalho dos intelectuais, nos últimos anos. E considera que a estrutura orgânica do sector corresponde às necessidades de intervenção do Partido. A grande preocupação, prossegue Carlos Grilo, é fazer uma intervenção específica para este sector, com iniciativa própria, mas integrada na actividade mais geral do Partido. No plano das massas, o esforço é dirigido para a integração no movimento mais geral dos trabalhadores.
«O projecto de resolução política prevê que, no caso de serem necessárias alterações orgânicas, sejam os próprios sub-sectores a propô-las», afirma o responsável pelo sector. Filipe Diniz, actual dirigente do sector, concorda e adianta que o «Sector Intelectual é um sector de sectores», todos com algo em comum, mas cada um com as suas características próprias.
Carlos Grilo põe a tónica no recrutamento. Em sua opinião, esta é a melhor maneira para reforçar a influência do Partido junto destes trabalhadores. A maioria dos militantes do sector intelectual de Lisboa do PCP tem mais de 50 anos e chegar aos jovens que assumem profissões intelectuais – muitos deles com vínculos precários – é uma necessidade. Mas já muito se tem feito para renovar e rejuvenescer o sector, destaca. A lista para a direcção, que está em fase de construção, associará a «experiência e o valor de muitos camaradas há muito na direcção do sector intelectual e outros, mais novos, que se têm destacado», conta Grilo.
Intervir na luta das ideias
Para Manuel Gusmão, os intelectuais têm um importante papel a desempenhar na luta das ideias. O dirigente comunista entende ser necessário «conhecer as condições em que trabalhamos e os temas em que podemos insistir». E propõe a questão dos direitos como um dos temas que se deve colocar. «Há uma plataforma de direitos, conquistada no século XX, que está hoje a ser posta em causa», destaca. Estes direitos não são apenas individuais, mas sobretudo colectivos.
Outra das questões que Manuel Gusmão levanta prende-se com a «actual ofensiva à democracia, nomeadamente à democracia política». Mas o dirigente comunista destaca um outro tema, com imensa tradição junto dos intelectuais portugueses: a luta pela Paz, contra a guerra. No passado, recorda, os intelectuais tiveram um importante papel na luta contra a guerra e é possível fazer ligações com o presente.
Carlos Grilo considera que muito há a fazer no plano da luta ideológica. Para este membro do Comité Central, a influência do Partido nesta luta terá de ser reforçada, partindo dos seus princípios, mas reforçando o trabalho unitário, com outros trabalhadores intelectuais não comunistas. Este trabalho «deve permitir uma mobilização para a acção, conjuntamente com o movimento operário, para conseguir uma ruptura com a política de direita e promover a alternativa de esquerda».
Precariedade, falso emprego, desemprego
Profissões em mudança
Já lá vai o tempo em que as actividades intelectuais eram património de uma elite social, originária das classes mais favorecidas e instruídas da população. Actualmente, isto já não é assim. Lembrando que os intelectuais são uma camada social heterogénea e transversal do ponto de vista das classes, Filipe Diniz, membro da direcção do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, destaca que a maioria destes trabalhadores são assalariados. Muitos trabalham em condições precárias, quantas vezes a recibos verdes. A tendência para a precarização do trabalho é geral, mas afecta agora também os intelectuais, destaca Manuel Gusmão, igualmente dirigente do sector.
Outra das realidades do emprego científico actual é a utilização gratuita dos conhecimentos e capacidades de jovens cientistas, que prestam o seu trabalho na condição de bolseiros, muitas vezes durante vários anos.
Manuel Gusmão destaca uma outra realidade: ao mesmo tempo que cresce o número de licenciados em Portugal aumenta também o desemprego nesta camada. É, aliás, no grupo dos licenciados que o desemprego mais tem aumentado, afirma.
Para Filipe Diniz, o desemprego de trabalhadores qualificados deve-se à política de desindustrialização e de destruição do aparelho produtivo que tem vindo a acontecer no País nas duas últimas décadas. Filipe Diniz considera que as empresas portuguesas são pequenas e não têm dimensão para suportar o investimento em investigação. Para este dirigente, para que a economia se desenvolva são necessárias empresas com uma «dimensão que permita que investigação e desenvolvimento sejam, eles próprios, rentáveis». «Como a lógica é exactamente a contrária, de enfraquecer o aparelho produtivo, não há investigação», remata.
Manuel Gusmão denuncia o que considera ser o bloqueio à universidade pública, com clara influência no desemprego dos jovens licenciados ou pós-graduados. Na sua opinião, bloqueia-se o avanço nas carreiras docentes dos actuais professores, bem como a admissão de jovens diplomados. «Há uma geração perdida», lamenta. «Algumas destas pessoas, que são brilhantes, foram formadas pela universidade pública, a mesma que não as consegue trazer para o seu seio e pô-las a trabalhar», destaca.
«Faz-se passar a ideia de que os licenciados desempregados são sobretudo da área das Humanidades», afirma Filipe Diniz. Mas esta ideia é falsa, destaca. Embora Portugal tenha poucos licenciados nas áreas científicas (está muito abaixo da Irlanda e da Grécia), «é nessas áreas que se verificam as maiores taxas de desemprego», denuncia o dirigente do Sector Intelectual.
As alterações
As profissões intelectuais estão em mutação. Já não são património de elites. O número de indivíduos cuja formação escolar os coloca na condição de intelectuais aumentou. Mas a sua integração na profissão é, em muitos casos, difícil. O projecto de resolução política debruça-se com profundidade sobre o estado actual das profissões intelectuais.
Professores
No que respeita aos professores do Ensino Superior Público, verifica-se um grande fosso geracional, que resulta do preenchimento dos quadros em meados dos anos 80. Desde então que não se verifica qualquer abertura de quadros nem alargamento. Pelo contrário, reduz. Os cortes orçamentais têm conduzido à criação de situações desintegradoras da perspectiva de carreira profissional, nomeadamente através do recurso a bolseiros para o lugar de assistentes. No privado, não existe carreira docente e muito do trabalho é prestado em regime de prestação de serviços. O recrutamento é feito normalmente junto dos grupos ideológico e político-económicos que giram à volta das instituições. No ensino não-superior, a situação assemelha-se, de certa maneira, à do ensino superior público, nomeadamente com a existência de uma fronteira geracional. Nos últimos anos, esta realidade tem-se vindo a alterar, estando a geração do pós-25 de Abril a ser substituída por outra, com situação precária e sem direitos. «Nomadismo» e desemprego são realidades quotidianas de muitos jovens professores.
Arquitectos
Classe profissional muito jovem – 75 por cento terão menos de 40 anos –, os arquitectos vêem hoje saturadas as suas saídas profissionais tradicionais, na administração pública e no ensino. Existe um processo de especialização, diferenciação e hierarquização internas na profissão. Muitos arquitectos são assalariados de outros arquitectos – ou, mais frequentemente, prestam serviço a recibo verde – e desempenham funções de desenhador. O preço do trabalho degrada-se e o actual modelo de estágio de acesso à profissão, promovido pela Ordem dos Arquitectos, tende a constituir uma fonte anual de mão-de-obra gratuita para muitos gabinetes.
Jornalistas
Profissão marcada por uma crescente precarização dos vínculos laborais e pela exploração desenfreada. O recurso, por parte das empresas, ao trabalho gratuito de estagiários ou licenciados sem emprego é cada vez maior. Feriados não pagos, ausência de subsídio de refeição, desregulamentação dos horários, contratos individuais são frequentes nesta profissão. A concentração dos meios de comunicação social num pequeno número de grupos económicos dificulta que os trabalhadores mais combativos e reivindicativos possam conseguir novo trabalho se perderem o emprego, o que funciona como pressão. Todos os atropelos aos direitos e a ameaça do desemprego pesam definitivamente sobre o conteúdo da informação produzida. Tudo isto contribui para que a informação e a programação sejam hoje tratadas como uma indústria de conteúdos, fundamentalmente com interesse económico.
Psicólogos
A situação dos psicólogos tem vindo a agravar-se nas suas diferentes áreas de intervenção. O desemprego, o emprego precário e a exploração de trabalho voluntário gratuito são realidades comuns, inclusivamente no Estado. Para além dos problemas que afectam todos os outros trabalhadores, os psicólogos sofrem do facto de a psicologia não ser ainda considerada uma área fundamental do saber, indispensável para a formação de crianças e jovens, e no combate às múltiplas pressões que afectam actualmente os indivíduos.
Profissões artísticas
A situação dos artistas plásticos, dos trabalhadores do teatro e dos músicos não é também muito positiva. O aumento dos formados nestas áreas não tem correspondência com o aumento de saídas profissionais. No caso do teatro, os actores poucas vezes fazem parte do corpo fixo dos teatros, sendo contratados para trabalhos específicos. Na televisão, a situação é praticamente de monopólio, o que dificulta o aparecimento de novos actores. No caso dos músicos, é o poder local que assegura a sobrevivência de muitos conjuntos. Com a redução das verbas para as autarquias, reduz-se o número de espectáculos e estes trabalhadores vêem a sua situação piorar ainda mais.
Já lá vai o tempo em que as actividades intelectuais eram património de uma elite social, originária das classes mais favorecidas e instruídas da população. Actualmente, isto já não é assim. Lembrando que os intelectuais são uma camada social heterogénea e transversal do ponto de vista das classes, Filipe Diniz, membro da direcção do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, destaca que a maioria destes trabalhadores são assalariados. Muitos trabalham em condições precárias, quantas vezes a recibos verdes. A tendência para a precarização do trabalho é geral, mas afecta agora também os intelectuais, destaca Manuel Gusmão, igualmente dirigente do sector.
Outra das realidades do emprego científico actual é a utilização gratuita dos conhecimentos e capacidades de jovens cientistas, que prestam o seu trabalho na condição de bolseiros, muitas vezes durante vários anos.
Manuel Gusmão destaca uma outra realidade: ao mesmo tempo que cresce o número de licenciados em Portugal aumenta também o desemprego nesta camada. É, aliás, no grupo dos licenciados que o desemprego mais tem aumentado, afirma.
Para Filipe Diniz, o desemprego de trabalhadores qualificados deve-se à política de desindustrialização e de destruição do aparelho produtivo que tem vindo a acontecer no País nas duas últimas décadas. Filipe Diniz considera que as empresas portuguesas são pequenas e não têm dimensão para suportar o investimento em investigação. Para este dirigente, para que a economia se desenvolva são necessárias empresas com uma «dimensão que permita que investigação e desenvolvimento sejam, eles próprios, rentáveis». «Como a lógica é exactamente a contrária, de enfraquecer o aparelho produtivo, não há investigação», remata.
Manuel Gusmão denuncia o que considera ser o bloqueio à universidade pública, com clara influência no desemprego dos jovens licenciados ou pós-graduados. Na sua opinião, bloqueia-se o avanço nas carreiras docentes dos actuais professores, bem como a admissão de jovens diplomados. «Há uma geração perdida», lamenta. «Algumas destas pessoas, que são brilhantes, foram formadas pela universidade pública, a mesma que não as consegue trazer para o seu seio e pô-las a trabalhar», destaca.
«Faz-se passar a ideia de que os licenciados desempregados são sobretudo da área das Humanidades», afirma Filipe Diniz. Mas esta ideia é falsa, destaca. Embora Portugal tenha poucos licenciados nas áreas científicas (está muito abaixo da Irlanda e da Grécia), «é nessas áreas que se verificam as maiores taxas de desemprego», denuncia o dirigente do Sector Intelectual.