Holofotes e pouco mais
Só os próprios saberão se é na prevalência das teses trotsquistas daquela casa ou nas ambições de protagonismo que a povoam, que residirá a razão do desvario que parece ter assaltado o Bloco em matéria europeia. Oportunismos à parte, de esquerda ou de direita pouco relevarão para o caso, o que não deixa de ser inquietante é a ligeireza com que estes se movem perante o tema ou a facilidade com que o subordinam a interesses tácticos de momento. Sempre em nome de coerências e convicções que não ultrapassam os horizontes do respectivo umbigo político, radicalmente embrulhados em jogos de palavras mas surpreendentemente coincidentes com os objectivos de quem dizem querer combater.
Em matéria de reclamação de referendo é o que se vê: surfando a onda do que sentem ser a opinião dominante, negligenciando as condições para travar com a maior margem possível de sucesso a batalha, aceitando como boa a prevalência da assinatura de um primeiro ministro à indispensável ratificação parlamentar do Tratado, vendendo uma proposta de pergunta a submeter a consulta popular que sabem ser juridicamente inconstitucional e politicamente deplorável. E se é de admitir que este posicionamento se explique pela desmedida procura de um qualquer holofote que lhes traga luz à cena, não é menos verdade que ele reflecte outros e mais substantivos equívocos políticos e ideológicos. Traduzidos desde logo nesta significativa posição de explicitamente aceitar como bom um texto constitucional europeu desde que elaborado por «uma constituinte» sem nos saber, ou querer, explicar, em que é que de melhor se traduziria em matéria de conteúdos. Conhecendo-se como se conhece a posição, para pior, no sentido federalista e neoliberal da posição do Parlamento Europeu face ao texto do Tratado, e não querendo o Bloco partilhar da divina intuição que os impulsiona a julgar possível eleger uma assembleia constituinte europeia com uma composição ao arrepio da correlação de forças existente, ficará legitimamente fundada a suspeita de que, para justificar a sua opção federalista, ao Bloco pouco importará os incomensuráveis riscos de uma efectiva constitucionalização do neoliberalismo à escala europeia, imposta e sobreposta à ordem constitucional de cada país a começar pelo nosso.
Pelo que frases feitas como «popularizar a União Europeia», «a refundação democrática da Europa» ou «soberania popular de dimensão europeia» podem colorir o discurso, mas são pouco mais que nada, e em tudo insuficientes, para iludir a questão essencial da natureza económica da União Europeia, do sentido e interesses políticos presentes nos seus órgãos de poder, do permanente e irresolúvel conflito de interesses de classe que neste espaço se manifestam.
Em matéria de reclamação de referendo é o que se vê: surfando a onda do que sentem ser a opinião dominante, negligenciando as condições para travar com a maior margem possível de sucesso a batalha, aceitando como boa a prevalência da assinatura de um primeiro ministro à indispensável ratificação parlamentar do Tratado, vendendo uma proposta de pergunta a submeter a consulta popular que sabem ser juridicamente inconstitucional e politicamente deplorável. E se é de admitir que este posicionamento se explique pela desmedida procura de um qualquer holofote que lhes traga luz à cena, não é menos verdade que ele reflecte outros e mais substantivos equívocos políticos e ideológicos. Traduzidos desde logo nesta significativa posição de explicitamente aceitar como bom um texto constitucional europeu desde que elaborado por «uma constituinte» sem nos saber, ou querer, explicar, em que é que de melhor se traduziria em matéria de conteúdos. Conhecendo-se como se conhece a posição, para pior, no sentido federalista e neoliberal da posição do Parlamento Europeu face ao texto do Tratado, e não querendo o Bloco partilhar da divina intuição que os impulsiona a julgar possível eleger uma assembleia constituinte europeia com uma composição ao arrepio da correlação de forças existente, ficará legitimamente fundada a suspeita de que, para justificar a sua opção federalista, ao Bloco pouco importará os incomensuráveis riscos de uma efectiva constitucionalização do neoliberalismo à escala europeia, imposta e sobreposta à ordem constitucional de cada país a começar pelo nosso.
Pelo que frases feitas como «popularizar a União Europeia», «a refundação democrática da Europa» ou «soberania popular de dimensão europeia» podem colorir o discurso, mas são pouco mais que nada, e em tudo insuficientes, para iludir a questão essencial da natureza económica da União Europeia, do sentido e interesses políticos presentes nos seus órgãos de poder, do permanente e irresolúvel conflito de interesses de classe que neste espaço se manifestam.