O reencontro

Anabela Fino
Ferro Rodrigues e Durão Barroso, que é como quem diz o PS e o PSD, têm andado de candeias às avessas vai para aí sete meses devido, segundo foi público e notório, a uns desaguisados por causa da lei do financiamento dos partidos. Se a memória nos não falha, o PSD roeu a corda à última da hora - política de contenção oblige - e remeteu para melhores dias um alegadamente prometido aumento para os cofres partidários. O PS - que não se incomodou com outros aspectos da legislação, como o que impede os partidos de desenvolver actividades culturais para angariação de fundos - não gostou, sentiu-se traído e Ferro jurou mesmo que não voltaria a falar com Durão sem ser na presença de testemunhas. Jurou e cumpriu, mas tudo aponta para que o mau tempo tenha passado.
Esta semana, Durão chamou Ferro a São Bento, ao que o dirigente do PS acedeu devidamente acompanhado, e segundo rezam as crónicas foi fumado o cachimbo da paz. O pretexto foi a reorganização dos serviços secretos portugueses. A comunhão de pontos de vista foi tal que o PS admite desistir de apresentar na Assembleia da República o seu projecto-lei sobre a matéria, aguardando pacientemente pela iniciativa da maioria.
No final do encontro, as partes repetiram-se: o que os une é mais do que aquilo que os separa, e daqui para a frente haverá outros encontros, embora com «menos aparato mediático».
Para que não subsistam dúvidas quanto à paz institucional reencontrada, Ferro Rodrigues não se limitou a dizer que o encontro foi «produtivo», as palavras de circunstância, antes insistiu em levantar a ponta do véu sobre os consensos do futuro: a reforma da administração pública e a posição de Portugal face à Conferência Intergovernamental.
Para quem ande distraído, a administração pública esteve a semana passada em greve por causa da dita reforma, agora em discussão no Parlamento, e nem à lupa se consegue encontrar trabalhadores que a defendam. Quanto à Conferência Intergovernamental, é a tal onde se prepara a alienação do que resta da soberania nacional com a aprovação de uma Constituição europeia para a qual os portugueses não foram vistos nem achados.
Do resto em que PS e PSD vão entender-se nada foi dito, mas não é preciso muita imaginação para perceber que a populaça não é para ali chamada. Conversa de amigos, se bem me faço entender...


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