Interesses

Henrique Custódio
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, reuniu-se com o seu homólogo francês, o presidente Jacques Chirac, para falarem, entre outras coisas, dumas futuras «forças armadas europeias», com relevo para uma «força de reacção rápida» para «apoiar as Nações Unidas em caso de crise».
Ou seja, falaram mais uma vez da já velha questão de um exército europeu autónomo, pago pela União Europeia e ao serviço dela, que é como quem diz de quem nela manda, tendo ambas as partes apoiado a ideia com calorosas adesões de circunstância.
Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
O interessante apareceu um bocadinho ao lado.
Foi quando Tony Blair, dirigindo-se aos franceses em francês (virtuosismo poliglota que o líder inglês nunca se envergonha de exibir), afirmou para a cadeia de televisão France 2 que «talvez fosse mais fácil parar mim, como primeiro-ministro, escolher entre a Europa e os EUA, mas não faço essa escolha, porque isso não é no interesse do meu país».
Também tudo como dantes, com acento num pormenor.
É que ao frisar a velha prioridade dada pelo Reino Unido à sua aliança militar com os EUA, o governante britânico não hesitou em alegar «o interesse do seu país», fazendo-o com a naturalidade de quem invoca um argumento indiscutível.
São assim os grandes. Não só têm interesses próprios, como nunca hesitam em invocá-los para impor aos outros os seus pontos de vista.
Paralelamente, os organismos responsáveis da União Europeia resolveram fazer um acerto ao tão propalado «Pacto de Estabilidade».
Para os casos da França e da Alemanha – países que, flagrantemente, já violaram esse Pacto e se dispõem a repetir violação nos próximos anos – o governo da União decidiu aceitar o facto, passar uma esponja, fingir que não está a acontecer e, sobretudo, não impor a ambos as sanções financeiras previstas.
Quanto aos governos da França e da Alemanha, propriamente ditos, nem sequer admitem quaisquer críticas ou observações, tanto à sua flagrante violação do Pacto de Estabilidade (que, aliás, eles próprios é que impuseram à União Europeia para impedir deslizes nas contas públicas por parte de membros mais negligentes, como a Itália), como ao excessivo défice que apresentam e se afirmam decididos a repetir.
O seu argumento – o único que admitem, desde que sejam apenas eles a invocá-lo – é de que a violação do Pacto e a ultrapassagem do défice se devem aos indiscutíveis «interesses próprios» de cada um deles, pelo que não apenas as praticam, as «violações» e as «ultrapassagens», como repetirão a dose o tempo e as vezes que for necessário.
Reafirme-se.
São assim os grandes. Não só têm interesses próprios, como nunca hesitam em invocá-los para impor aos outros os seus pontos de vista.
Quanto aos «pequenos» (sobretudo se, estes, como tal se comportarem e submeterem), são olhados, neste «concerto de Nações» que é a União Europeia, não apenas com sobranceria mas, sobretudo, com rigores que não existem para os poderosos.
Mais uma vez, tudo como dantes.
De qualquer modo, nestes «interesses próprios» que invocam, os grandes são muito claros e directos: incluem neles a satisfação das responsabilidades sociais do Estado, dos salários dos cidadãos, dos volumes de emprego, dos níveis de vida, do investimento e etc., de modo a não se verem a braços com excessivos protestos sociais.
Exactamente o contrário do que faz o actual Governo: a pretexto (porque não é mais que um pretexto...) de cumprir escrupulosamente o «Pacto de Estabilidade», o Executivo de Durão Barroso impõe restrições, apertos e estrangulamentos sociais e económicos que os grandes da Europa recusam... com a violação do Pacto.


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