Agricultores em luta

«Esta PAC mata»

Mais de cinco mil agricultores manifestaram-se, em Lisboa, na passada quinta-feira, em protesto contra as consequências nefastas da Política Agrícola Comum (PAC).
Denunciadas pelos seus trajes e sotaques, milhares de pessoas, vindas de todo o País, representando várias associações e diversas áreas da agricultura, e respondendo ao apelo da Confederação Nacional dos Agricultores (CNA), desfilaram, na passada quinta-feira, desde o Marquês de Pombal até à Assembleia da República com o objectivo de sensibilizar o Governo e a opinião pública para a difícil situação da lavoura e da floresta.
Porque o dia era de reivindicação, foi montado, no Parque Eduardo VII, um palco para que os agricultores pudessem dizer aquilo que lhes vinha na alma. «Tenha pena dos portugueses porque precisam de comer», dizia uma das intervenientes, em mensagem dirigida ao ministro da Agricultura.
Por sua vez, Manuel Rodrigues falou das propostas aprovadas pelo Executivo PSD/CDS-PP, em relação aos baldios. «Com estas medidas, o Governo pretende tirar os baldios ao povo para os entregar aos grandes interesses económicos», denunciou. O agricultor deixou ainda uma mensagem: «A luta não termina aqui. Estamos a dar mais um passo em defesa da nossa propriedade.»
Entretanto, passava já da hora marcada, quando os agricultores, empunhando centenas de cartazes e dezenas de enormes faixas, deram inicio à manifestação. Presente no protesto, encontrava-se Agostinho Lopes, da Comissão Política do PCP.
«Esta PAC não!», «O Governo têm de nos ouvir», «Não pode continuar a produção por escoar», «Agricultores e consumidores: um por todos e todos por um», «Prós grandes são milhões, para os pequenos são tostões», «Salvem a floresta da indústria do fogo» eram alguns dos dizeres que, durante o percurso, foram entoados pelos manifestantes.
Com música tradicional a acompanhar, os manifestantes foram subindo Rua Braancamp em direcção à Assembleia da República. A meio do caminho, perto do Largo do Rato, junto à sede do PS, ouviu-se um ruidoso assobiou, num claro sinal de descontentamento com as políticas seguidas pelos partidos que estiveram no Governo ao longo destes 29 anos.
À medida que o protesto ia passando, a curiosidade de quem por ali trabalhava ia aumentando. «Eles prometem muito, mas fazem pouco», disse um operário da construção civil, solidarizando-se com a luta dos agricultores. A resposta, na ponta da língua, foi directa: «Não deixaremos que nos roubem aquilo que é nosso.»
Finalmente, passado mais de uma hora, a cabeça da manifestação chega ao Parlamento. «Cheguem-se para este lado, porque os manifestantes não vão caber todos aqui», dizia, com a ajuda de duas colunas de som, um dos organizadores da marcha.

Velhas reclamações

Muitos minutos depois dos manifestantes terem chegado ao Parlamento, foi a vez de Armando Carvalho, da Direcção Nacional da Confederação Nacional dos Agricultores, fazer uma intervenção, denunciando os problemas do mundo rural.
«Estamos aqui, nesta grande manifestação nacional, com o objectivo de protestar contra esta reforma da PAC», afirmou o dirigente, exigindo «uma política agrícola com mais produção e menos papelada, com ajudas modeladas e “plafonadas”. Isto é, ajudar quem mais precisa, quem ama o trabalho e a agricultura, e não ajudar sempre os mesmos, os senhores absentitas do Alentejo», disse.
No ano em que a CNA fez 25 anos, Armando Carvalho lembrou o percurso que a confederação fez nestas últimos duas décadas. «Enfrentámos muitos obstáculos, mas foi com a vossa união e com a vossa cooperação que a CNA veio a ser reconhecida como parceiro social», contou, ressalvando o facto de os agricultores nunca terem abdicado «dos princípios que estão consubstanciados na primeira carta da lavoura portuguesa, contendo as principais reclamações na época, algumas delas ainda por cumprir», numa referência ao seguro agro-pecuário.
Numa altura em que se está a discutir os apoios para o desenvolvimento rural, o dirigente da CNA lembrou, mais uma vez, que a agricultura familiar portuguesa tem razões no seu protesto e legitimidade nas suas exigências. «Tem razão em reclamar mais e melhores medidas para o sector da pecuária e leite», sublinhou, informando que este vai ser atingido, para o próximo ano, com mais uma descida do preço do leite, em cerca de 20 por cento.
Armando Carvalho falou ainda dos necessários apoios para as adegas cooperativas e, naturalmente, dos problemas que afectam os vinicultores da zona demarcada do Douro. «Daqui enviamos uma saudação muito especial ao PCP porque teve a coragem, na Assembleia da República, de pedir a apreciação dos decretos-lei, para que mais uma vez o Douro venha aqui dizer o que pensa e o que quer. » Segundos depois, o secretário-geral dos comunistas, Carlos Carvalhas, e o deputado Lino de Carvalho desceram a escadaria do Parlamento para se juntar ao protesto dos agricultores. Tal presença mereceu, por parte dos manifestantes, uma enorme salva de palmas, em forma de reconhecimento, pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos, na tentativa de salvar a agricultura em Portugal.
Entretanto, na conclusão da sua intervenção, em nome da Confederação Nacional da Agricultura, Armando Carvalho pediu ao ministro da Agricultura e ao Governo que «tenham sensatez e tino», no que diz respeito à reforma do sector florestal.

Intimidação policial

Após a entrega das reivindicações da CNA à Comissão Parlamentar da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, assim como aos grupos parlamentares, e porque o tempo era escasso, os manifestantes continuaram a sua marcha em direcção à residência oficial do Primeiro-Ministro, a poucos metros dali.
Aconteceu então um episódio que todos acharam insólito. Cerca de uma dezena de agentes da PSP bloquearam a rua que dava acesso ao destino dos manifestantes. Confrontados com tal hostilidade, os organizadores da manifestação, que não contavam com tal medida, interrogaram as autoridades acerca do bloqueio, tendo obtido como resposta «sempre assim foi», e que se quisessem prosseguir teriam que cortar pela rua Almeida Brandão, andando mais um quilometro.
A intenção era clara: demover os agricultores do seu protesto, que consistia somente na entrega de um documento ao representante máximo do Governo.
Houve um clima de tensão no ar, polícias de um lado, agricultores do outro, que envergando cartazes, e manifestando determinação, disseram bem alto «daqui não saímos».
Confrontados com tamanha resistência, um outro grupo de agentes desceu a rua, tornado o clima ainda mais intimidatório. Ao mesmo tempo, um oficial tentava, com falinhas mansas, separar os manifestantes, dizendo que «por ali era melhor», apontando para uma rua que não tinha fim. Não conseguindo atingir os seus objectivos, esse mesmo agente, mudando de táctica, pediu a identificação a um agricultor. Confiantes, os agricultores responderam-lhe: «Se o homem for chamado, não se esqueça, viremos todos.»
A indignação era patente nos milhares de agricultores. «Isto parece a ditadura», dizia um deles, virando as costas aos polícias, mas não à luta.


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